terça-feira, 30 de agosto de 2016

Um conto sobre um espelho.

Era uma vez uma pessoa que encontrou um espelho na rua. O espelho era grande, e a pessoa estava justamente precisando de um espelho daquele tamanho, e decidiu: "Vou levá-lo comigo!".

Carregou o espelho para a sua casa, com muito carinho. Ali, começou a usar o espelho, e ficou muito feliz em tê-lo na sua casa.

Mas de repente, sem motivo nenhum, o espelho cai. Na tentativa de segurá-lo, feriu o braço da pessoa. O espelho caiu no chão e se espatifou em mil pedaços.

A pessoa aterrorizada correu pra lavar e desinfectar a ferida, e chorou com a gravidade da ferida. Uma ferida grave, que danificou seu braço que era bonito e perfeito, e depois daquele corte nunca mais seria o mesmo, estando com uma cicatriz, um símbolo daquele espelho tão querido que se quebrou, e ainda lhe feriu!

Esse espelho é como os homens e eu sou a pessoa da história: eu precisava deles, os levei pra mim com amor e carinho, e esse homem ingrato escapou de mim, se destruiu e ainda por cima me machucou, deixando sua marca danificando a beleza do meu ser pelo resto da minha vida!

quinta-feira, 7 de julho de 2016

É difícil se apaixonar por um homem hoje em dia.

Primeiro dia de aula, segundo, terceiro, décimo, depois de um e dois meses: eu olho os rapazes e não encontro nenhum interessante, nenhum pra me apaixonar.

Eu olho pra cada um e acho todos iguais. Não há nenhum que olhe e aja chance de ser, nem que seja só um pouco, diferente.

E o pior: de todos eles, TODOS, a certeza que, caso eu me achegasse, irão me desprezar!

A desilusão com as experiências do passado não muito passado (um pretérito imperfeito que é a cara do país que vive eternamente repetindo o passado) foi tamanha que não consigo sequer olhar prum homem sem junto pensar que ele, com certeza, me rejeitará e me desprezará!

Os manauaras são extremamente preconceituosos. E discriminadores. Pessoas de outros estados ou mesmo LGBTs de outros estados não conhecem a realidade intelectual do povo amazonense e do povo manauara, da capital Manaus. Aqui, até os LGBTs são super-preconceituosos. Tente se apresentar como homem trans para um gay que ele vai embora morrendo de nojo!

Os homens manauaras são extremamente hostis. Até mesmo os que parecem também sofrerem hostilidade dos demais também rejeita, a perfeita cena do absurdo de "oprimidos que também oprimem", que parece ser coisa só de uma sociedade extremamente atrasada intelectualmente como a brasileira!

Um rapaz que se isola do mundo real e vive no videogame, mas que é super machista e preocupado com as aparências (status social), me desprezou!

Um outro rapaz que parece ser muito tímido, quando tentei conversar, ele rejeitou na hora! E olha que o motivo da conversa era outra coisa, imagina se fosse aquela...

Assim fica difícil! Assim não há santo que agüente!

Daí prefiro nem chegar perto, nem ousar tentar, ou dar uma chance, tanto pros homens quanto pra mim mesmo. Melhor enfiar na cabeça a dura realidade de que nenhum homem presta, daí mesmo que um rapaz lindíssimo apareça, lembrar que provavelmente ele me rejeitará igual a todos os outros, e a paixão logo vai embora!

Às vezes acho bom assim, não me apaixonar por nenhum homem, assim não corro risco de sofrer mais desprezos, nem mais frustrações, desilusões, decepções...

Mas ao mesmo tempo, a vida fica vazia, o coração duro, a vida sem sentido.

Mas fazer o quê, se os homens acham que estão "arrasando" assim?

A sociedade decidiu que amor seria coisa "brega", jogaram-na à margem da sociedade e a varreram pra baixo do tapete, igual como fazem com as pessoas trans. E ninguém reclama. É complicado reivindicar por afetividade, não é como se reivindica direitos sociais. Daí porque ser homem trans gay no Brasil é tão difícil até pra reivindicação social, pois reivindicar que homens parem de terem nojo de "machos com vagina" é um tabu que mexe com os pilares do machismo, que a população está tão acostumada até a reproduzir, que mexer vai causar uma crise de realidade e até de identidade na população!

A sociedade brasileira até hoje morre de medo de mudança. Quer e reconhece a necessidade de mudar, mas no momento H sempre amarela e volta a continuar como estava. Enquanto não superar esse medo, os homens continuarão todos iguais, e eu não conseguirei mais me apaixonar e muito menos me casar antes dos meus muito próximos 30 anos!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O sexo oral num tempo de masculinismos

Foi um rapaz que esteve do meu lado, cujo cheiro dele era de sexo oral. Daí lembranças vieram. Lembranças de relações com o único homem que havia me dado uma chance, mas logo depois me desprezou.

Daí as mesmas lembranças me trouxeram arrependendimento, até mesmo nojo.

Não que eu tenha deixado de gostar do órgão genital masculino, e sim porque não considero o homem digno de tamanha carícia.

Principalmente hoje, nos atuais tempos em que os homens brasileiros confessam odiar vagina e o feminino, odiar mulheres e pessoas trans.

Assim como o sexo anal, o sexo oral é uma entrega muito grande. Mais que isso: parece quase uma declaração de amor à genital que se está acariciando!

Daí que essa genital é do mesmo indivíduo que odeia mulheres e pessoas trans. Lembrando que os brasileiros são muito iguais uns aos outros, e entre os homens é quase uma regra sem excessão!

Isso inclusive deve ser origem de muita arrogância nos homens, que exigem demais sexo oral e não querem fazer a recíproca de dar amor a(o) parceira(o) em troca. Daí o homem fica moleque mimado, e acredita que pode ser machista e misógino que ainda por cima será recompensado com um bom sexo oral!

Igual às gerações passadas de homens que não se importaram em tripudiar mulheres, pois depois poderiam se satisfazer com prostitutas.

Hoje me arrependo de ter feito o que fiz. Acredito que foi por causa de ter dado amor demais que fez o homem me desprezar. Eles não gostam de serem amados, acham coisa de mulher/bicha/inferior. E porque gostam de exercer poder (sua otoridade) nos outros: sentem prazer em ver a outra pessoa se arrastando e se humilhando por ele! Ô nojo!

Hoje tenho a convicção que, mesmo que um outro homem me dê uma chance (Ha ha! Duvido muito!), não faria sexo oral, mesmo que me suplicasse. Não quero ser humilhado de novo, muito menos receber punhalada nas costas de ingratidão!

Sei que isso é um pensamento muito perigoso, a negação de amar, diante de tempos de moda direitista, de aversão à afetividade. Mas homens não merecem ser amados. Pessoas estão sendo menos pessoas. As pessoas não são o que nós queremos que sejam.

Chega a ser controverso numa sociedade como a brasileira, o masculinismo (homens lutando pela neo-misoginia), o ódio contra o feminismo em alta e a neo-relativização do estupro evoluíndo para uma cultura do estupro, e ao mesmo tempo homens exigindo sexo oral em unanimidade. Esses homens merecem tamanha carícia? Esses homens se olham no espelho?

A sociedade e as pessoas precisam mudar, mas elas precisam ter coragem pra mudarem de fato.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Qual é o sentido da minha vida hoje?

Fui surpreendido com uma questão de ensino religioso. Surpreendido porque eu não queria admitir pra mim mesmo viver tamanho pesadelo, mas já é reflexão sobre minha vida.

Apesar de ser ensino religioso, não deixa de ser uma reflexão que, caso os brasileiros tivessem, não seríamos uma nação de zumbis passivos: Qual é o sentido da vida?

Há 17 anos atrás eu responderia feliz a essa pergunta, enquanto que a reação dos demais brasileiros provavelmente (e até hoje) seria:

a) Nossa, eu nem imaginava que na vida existia um sentido!
b) Ai, não quero pensar nisso!

A população brasileiro não tem sentido de vida própria. Segue o que a sociedade, a família ou a televisão impuser. O sentido da vida do homem brasileiro é o status social e a satisfação sexual. O primeiro tornou-se mais importante que o outro, pois aquele que puder se encaixar como heterossexual se acomodará na satisfação sexual pra ganhar aprovação social, mesmo que sinta atração também por homens (bissexualidade) ou por pessoas trans (transafetividade).

Um dos maiores sentidos da minha vida era as pessoas. A existência das outras pessoas dá o colorido da vida. Assim eu já pensava deste que me entendo como gente. Um dos meus maiores objetivo era conhecer muitos homens incríveis, namorar, me casar. Depois isso virou o maior dos objetivos, pela extrema dificuldade que é conseguir isso, e hoje reconheço que conseguir isso é impossível.

Mas o brasileiro não pensa assim, o brasileiro não age dessa forma! O brasileiro vê a outra pessoa como um rival a ser vencido, ou como uma escada um pra sugar um favor ou conseguir um objetivo. Daí porquê homens heteros brasileiros vêem as mulheres como objetos ou cervas pra conseguir satisfação sexual, ou até mesmo pra ter serviços domésticos de graça. Eles não as vêem como uma companhia de vida!

Eu assim pensava que eram as pessoas quando criança, me baseando no meu irmão e em pessoas da televisão; mas depois a realidade foi batendo a porta, depois de conhecer como são as pessoas na vida real, e descobri que pessoas não são pessoas (diferente do que uma psicóloga afirma), e sim sociopatas dente-de-leite.

Pessoas são esteriotipadoras: adoram tratar as outras em esteriótipos, caricaturizadas e exoticadas.

Pessoas adoram rotular as diferenças em vez de lidar com elas. E depois que rotulam, querem deixar visíveis apenas um lado e marginalizar o outro.

O sentido da minha vida era as pessoas. Mas quando descobri que as pessoas não eram aquilo que eu pensava que fosse, daí o sentido da minha vida se perdeu.

Daí aos 28 anos chego estupefato que, mesmo tendo um sentido de vida prematuramente, não impediu que eu chegasse aos 28 com um vazio, um vácuo na vida!

Porque imaginei que as pessoas eram uma coisa boa e descubro que são intragáveis!

Principalmente os homens, imaginei que fossem as pessoas mais incríveis e descubro que são as pessoas mais nojentas!

Simplesmente eu sonhei com uma coisa que simplesmente não existe na vida real.

Simplesmente não há um sentido na vida de um homem trans gay no Brasil, pois os homens brasileiros odeiam homens trans, odeiam vagina, só aturam uma por status social.

Daí qual é o sentido da minha vida?

Minha vida não tem sentido!

Não existe sentido pra vida de um homem trans gay no Brasil.

E o que fazer agora?

Como vou preencher o vácuo que ficou? Tentar preencher com outra coisa é inútil!

Agora minha vida é um vácuo. E deste 2012 vou envelhecendo com esse vaziu, e daqui a mais uns anos chego aos 30 anos sem um sentido de vida!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

É preciso falar de estupro contra homens trans.

Quando se fala sobre estupro, a primeira vítima e talvez a única vítima que vem à cabeça é a mulher cisgênera, ou seja, a mulher que se reconhece como mulher. Só que não é só a mulher cis que tem a tal vagina e que sofre com a ameaça de estupro. Homens trans também possuem vagina, e são tão ameaçados de estupro quanto uma mulher cis!

O problema de se falar em homem trans no Brasil é que aqui eles ainda vistos como lésbicas. Uma das culpas está na televisão que os trata como se fossem super-lésbicas, enquanto que a lésbica só é uma mulher homossexual. A lésbica ainda se vê como mulher, e gosta de seu corpo biologicamente feminino. Enquanto que o homem trans não se vê como mulher e sim como homem, e rejeita o seu corpo biologicamente feminino.

A segunda culpa dessa confusão está no próprio movimento de lésbicas, que não sabem lidar com realidade de ``mulheres que querem ser homens´´(aspas altamente necessárias). Muitas acham que homens trans seriam na verdade ``lésbicas confusas´´ ou que seriam mulheres alienadas a se odiarem por causa do machismo que desqualifica o corpo feminino. Se esquecem que se isso fosse verdade, não existiria mulheres trans. Se esquecem que quem se identifica com o mundo feminino não vai querer sair dele, por mais que aja alienação contra. E o mundo dos homens trans é um mundo masculino. A alienação de desqualificação do corpo feminino só irá fazer o homem trans se descobrir mais depressa.

Quanto ao argumento de lésbicas confusas, isso é desqualificar as pessoas trans como incertas de si mesmas, como se fossem pessoas desprovidas de razão e consciência, ou de incapacidade de terem certeza do que querem. Em outras palavras, argumentar que homens trans seriam lésbicas confusas faz parte da patologização psicológica que a categoria trans tanto sofre e tanto luta em derrubar!

Além disso, existe também a questão dos homens trans gays, que derruba o esteriótipo de lésbicas confusas em homens trans heteros; e homens trans gays não são tão ``raridade das raridades´´ quanto se pensa! Basta procurar por homens trans organizados politicamente pra ver a quantidade de homens trans que se declaram gays, bissexuais ou até mesmo pansexuais!

O fato de homens trans serem confundidos com lésbicas já os faz também vítimas de ameaça de lesbofobia, e uma prática de lesbofobia é o chamado ``estupro corretivo´´, baseado que a mulher seria lésbica por falta de pênis. O que logicamente um estupro corretivo não iria jamais resolver, pois se a mulher detesta pênis, introduzir nela um pênis à força não irá fazê-la passar a gostar, e sim detestar mais ainda!

Homens trans também sofrem ameaça de estupro corretivo por homens cis acreditarem que aquela pessoa não quer ser mulher por falta de macho na sua vida. Um pensamento que já nasce equivocado pois mistura identidade de gênero com orientação sexual. Pior é quando se deparam com um homem trans gay: em vez de perceberem que não tem nada a ver com ``falta de macho´´, a teimosia é pior ainda, pois vêem o homem trans gay como ``perto de convencê-lo a gostar de ser mulher´´.

Sou homem trans gay e já sofri inúmeras ameaças e tentativas de estupro. Nunca fui estuprado, embora já sofri uma tentativa de ``sexo corretivo´´ sem saber e só percebi quando um outro homem trans percebeu isso. O único homem no qual me deitei parecia gostar de mim, foi tudo maravilhoso e tal. Só que depois da relação, ele mudou completamente, e passou a repetir que nunca ficaria comigo por eu não ser feminino. Ou seja, ele só teve relação comigo porque ele acreditou que depois do sexo eu iria me feminizar, jogar as roupas masculinas fora e até usar batom. Como isso não aconteceu, a reação dele foi me desprezar imediatamente. Eu posso não ter sofrido violência nenhuma, mas fui enganado e usado por um homem por causa de crença machista, e se eu soubesse disso, nunca teria transado com aquele homem! (Ou teria... e depois quebrado a cara dele de porrada, que é o que um homem como ele faria!)

Tem homem trans que esconde a questão do estupro contra si, acha que confessar que homem trans também é ameaçada de estupro vaginal os fará menos homens. Não, não faz. O problema é que há homens trans reproduzindo em suas mentes o mesmo pensamento dos homens cis, que é o pensamento machista. Não é demérito nenhum confessar que somos machos de vagina! Da mesma forma que mulheres trans são mulheres de peito e pinto e não deixam de serem feminíssimas, homens trans também são deixam de serem machos por causa da vagina!

O mais interessante é que o homem cis brasileiro, por ser tão narcisista, em teoria não deveriam odiar homens trans. Afinal, são um igual à eles, gostam das mesmas coisas, ambos vivem em mundos masculinos. E se o homem trans for gay, ele pode ser um companheiro pra transar e conversar sobre futebol ao mesmo tempo (e homem cis reclama tanto que mulher não gosta nem entende de futebol...). O problema é que o machismo fala mais alto, o ódio contra vagina fala mais alto. O machismo e a misoginia olham e tratam homens trans como um relez buraco a ser penetrado. Não importa pro homem cis se ele pode ter um companheiro pra transar e conversar sobre futebol: o maldito do status social é maior que tudo!

Um tratamento peculiar (e nojento) que homens cis dão pra homens trans: Homens cis vêem homens trans como mulher sem feminidade. O homem hetero brasileiro só vê valor na mulher cis se a mesma for feminina e ter corpão de ``gostosona´´, daí ela tem ``valor´´ que é dar status social de macho-alfa pro homem que a tiver como namorada/esposa. Como homem trans é uma vagina sem feminidade, logo não tem valor pra dar status social pra homem cis nenhum. Daí seriam vaginas sem valor, cujo única coisa que serve pros homens heteros (pra eles o sentido da existência da vagina é de servir à vontade deles!) é o prazer sexual. Logo na racionalidade cruel do machismo e da misoginia, homem trans só é digno de estupro por parte dos homens cis, e que homem trans recebendo amor de homem cis é considerada uma abominação!

Porque estou dizendo isso? Porque eu como homem trans já percebi durante a vida vários homens gostando de mim. Uns inclusive sabendo que sou homem trans. Mas nenhum foi corajoso pra confessar alguma coisa e por isso sou solitário até hoje. No entanto, já sofri ameaças de estupro na cara-de-pau e nenhum se sentiu envergonhado em confessar que estupraria um homem trans! Já houve vagabundo rondando minha casa e comentando em ``pegar aquela machuda´´. Ou seja, homens cis sentem vergonha de sentir amor por um homem trans, mas os mesmos não sentem vergonha em estuprar o mesmo homem trans! O lógico que deveria encher homens cis de vergonha é o estupro, mas o machismo e a misoginia faz causam essa inversão de valores, tudo por causa desse sistema de valores nojento que o machismo e a misoginia criaram em relação à vagina.

Homens cis vêem homens trans como uma afronta, do tipo ``como ousa uma vagina (querer) ser tão macho quanto eu?´´.

Por isso que quando falo de machismo e misoginia é contra vaginas em geral, que ``homens odeiam vaginas´´ invés de ``homens odeiam mulheres´´, é porque estou inserindo tanto mulheres cis quanto homens trans. Sou homem trans, sou também vítima de machismo e misoginia, e não posso ocultar a minha própria causa do discurso. E se eu não inserir essa pauta no discurso, quem mais vai? Uma coisa que acho erro é o próprio feminismo excluir homens trans do debate feminista, por causa da nossa alto-afirmação masculina. Se esquecem que ainda somos trans, cassete! Melhor: nós sentimos o machismo e a misoginia na pele, sabemos como é uma bosta, e isso nos faz homens feministas (ou homens com vergonha na cara, como eu gosto de dizer), e homem feminista é um soco no saco de qualquer homem mascu! Mas também não sei se a não-inserção seria da vontade dos próprios demais homens trans ou um excesso de preocupação das feministas em não parecerem querer se meter na pauta dos homens trans.

Lembrando que mulheres trans também sofrem ameaça de estupro por causa de suas identidades femininas.

domingo, 5 de junho de 2016

Estupro no Brasil não saiu de 1999!

O assunto ainda é periclitante. Não importa se o assunto está meio atrasado. É preciso falar sobre isso!

Houve o estupro coletivo de trinta homens contra uma mulher menor de idade. Não foram três, nem dez, foram TRINTA! Trinta estupradores! Trinta homens estupradores!

Uma quantidade de estupradores alta e concentrada, alguma coisa está, e muito, estranha e errada! A reação (minha) foi choque psicológico... e choque de realidade, com álgum que, confesso eu, acreditava ser álgum superado, que é a teoria do homem estuprador em potencial.

Em 1999, quando descobri a existência do estupro (descobri que estupro existia, mas até hoje nunca fui estuprado), uma fobia de homem nasceu, e minha atração sexual por homens foi prejudicada. Passei anos da minha vida vivendo como uma pessoa assexual. Não saia de casa com medo de um homem me atacar. Mesmo apaixonado por alguém e desejando sexo, o medo do homem se transformar na cama e fazer o que não quero era maior.

Com o passar dos anos, eu imaginava que, principalmente, a essa altura do campeonato / ano de 2016, que o estupro já estaria suficientemente com força política baixa, que não seria mais possível um estupro coletivo, muito menos seria possível a reunião de trinta marmanjos pra estuprar uma única mulher, que caso acontecesse haveria uma revolta social de proporções gigantescas.

Mas a realidade bateu na porta.

Eu mesmo tentei rever a teoria do homem estuprador em potencial, mas ao mesmo tempo eu sabia que o tempo pode ter passado, mas os homens brasileiros não mudaram nada, continuam exatamente iguais de quando eu descobri a existência do estupro.

Mas não falo só do estupro coletivo.

Uma coisa é tanta quantidade de machos estupradores dispostos a estuprar. Outra é a sociedade masculina justificar e até apoiar o estupro!

Ou atacar o combate o estupro, que é o feminismo.

Se esperaria de a sociedade brasileira dita menos medieval condenasse o estupro, que todo mundo condenasse a cultura do estupro...

Mas o que aconteceu foi principalmente no Facebook, rede social que virou nicho do direitismo, homens condenando e denegrindo o feminismo, homens condenando textos criticando cultura do estupro.

Homens que ficaram com raiva de avatar contra cultura do estupro, em vez de ficarem com raiva dos trinta estupradores!

Homens que não queriam que se fizesse textão denunciando cultura do estupro, mas acharam tudo bem publicar textão contra feminismo.

Ou seja, os homens não estavam nem aí pro estupro coletivo, eles estavam mais preocupados em tirar o cu de reta, eles estavam mais preocupados com o debate sobre a cultura do estupro que estava prestes a acontecer. A impressão era (é) que eles não queriam (e não querem) que a cultura do estupro seja debatida; que eles queriam (e querem) que a cultura do estupro nunca desapareça!

Pior foi presenciar homens justificando do estupro! E não era só um e outro. A sensação foi/é de quase uma unanimidade dentre os homens! Uma sensação de terror ao ver os piores medos de 1999 se concretizarem em pleno 2016, de homens justificando estupro porque a vítima não estava em casa lavando a louça - que quem tiver vaginas que se isole dentro de casa! Porque a vítima mesmo menor de idade já teria tido filho -  que quem tiver vagina não pode fazer sexo cedo. Ou porque a vítima teria praticado orgia - que quem tiver vagina teria a obrigação de aceitar (tudo) que o(s) parceiro(s) imporem na hora do sexo!

Notem que nesses contextos os homens colocaram como se o estupro sofrido fosse uma punição naturalmente vinda, e punição por dois motivos absurdos, como se fosse proibido ou mal ter filhos cedos ou fazer orgia. Daí depois teve homem que inventou motivos piores - inventaram que a mulher não levava o filho à escola - pra tentar fazer colar melhor, pra tentar fazer mais aceitável a idéia de um estupro como palmada corretiva pra educar mulheres - só mulheres! Na cabeça dos homens brasileiros, àlgum tão cruel como humilhação sexual é educativo, e quando se cria pretextos pra ele, ele deixa de ser abominável pra virar aceitável! E detalhe: não há essa mesma idéia de estupro corretivo pra homens!

Diante de tudo isso me senti de volta em 1999, quando eu pensava que eu tinha que me salvar dos homens me isolando em casa, me abster sexualmente e deixar de viver uma vida plena que homens vivem. Só que diferente de antigamente, agora os homens, por meio de redes sociais, é quem afirmam isso, praticamente confessam que são mesmo uma ameaça e que quem tiver vagina que se afastem deles pra se salvarem, pois caso sofram estupro, eles não vão admitir que o problema é com eles, nem que eles é quem não devem estuprar! Parece que os homens gostam de serem temidos. Mas ao mesmo tempo, não gostam de ouvir isso. Tipo ``sou mau sim mas não diga isso na minha cara´´?

A impressão que dá é que esses homens fazem isso porque no fundo queriam estar junto aos trinta estupradores. Lá no fundo, eles também queriam estuprar, só não têm coragem. E agora que o estupro coletivo aconteceu, os homens brasileiros ficaram entusiasmados com a possibilidade de poderem estuprar em coletivo sem isso causar uma grande revolta social, pois pra isso bastaria uma enxurrada de comentários no Facebook. E depois choram lágrimas de crocodilo se chamados de estupradores em potencial.

Daí depois esses mesmos homens não querem ouvir que eles são todos iguais, que são estupradores em potencial, que são psicopatas, etc. São machistas, misóginos e psicopatas, e pra eles tudo bem serem machistas e misóginos, e até mesmo psicopatas, só não querem ser criticados por isso. Pelo contrário, querem ser amados por isso! A impressão que dá é que eles querem que as pessoas com vagina gostem de serem odiadas e sacaneadas por eles. Sinto muito, masoquismo não é unanimidade!

Daí perante tudo isso, como eu, um homem trans, vai conseguir encontrar um marido? Eu que sou homem trans, tenho vagina, tenho medo de estupro. Como vou conseguir até mesmo me apaixonar depois de presenciar homens que odeiam vaginas, odeiam feminismo, justificam estupro, botam culpa na vítima, que no final das contas cagam e andam pelas vítimas, dando a impressão que no fundo queriam também estuprar coletivamente? Como ir pra cama com alguém que acha que pode fazer o que quiser entre quatro paredes e que se eu fui é porque assumi o risco?

Agora me sinto de volta em 1999, quando descobri a existência do estupro e passei a temer todos os homens. Agora todo aquele medo voltou, e minha atração sexual por homens indo ladeira abaixo, risco de viver como um assexual pela segunda vez na minha vida. Tudo porque os homens brasileiros insistem em manter-se parados no tempo e serem os mesmos de 1999 em pleno 2016!

Por que os rapazes manauaras são tão "moleques"?

Álgum muito estranho acontece com os homens manauaras. Não sei como são os rapazes de outros estados, me baseio na idéia do rapaz modelo eixo Rio-São Paulo que é largamente demonstrado pela imprensa brasileira. Não que a imprensa não tenha deixado de ser mentirosa, mas que é muito diferente o próprio senso-comum do que é um rapaz da vida real que frequenta uma escola estadual da cidade de Manaus, Amazonas.
Tenho frequentado a escola estadual durante toda a vida, conheci os rapazes de 2000, 2003, 2007, e agora em 2016, e vejo que uma coisa nunca muda, na forma que os rapazes são.
Os rapazes manauaras são moleques demais, mesmo quando estão com 17 ou 19 anos, se comportam como se tivessem 14 anos. Não entendem nada o que os professores estão explicando, têm todo um jeito de "descolados" que era moda na juventude dos anos 2000 mas que agora parece patético pois demonstra imaturidade e irracionalidade - só esses rapazes manauaras que não prestaram atenção nisso, ainda acham que estão sendo atuais ou "modernos" se portar como um galeroso!
Esses rapazes coçam a cabeça quando os professores tentam lhes explicar coisas simples, e ainda fazem expressão "debochada" e de mal-encarado frente ao que não entendem, como se estivessem dizendo com os olhos que o outro que está errado, e que sua ignorância é que estivesse corretíssima! São uns "pobres diabos" que não sabem da História do Brasil e a melhor coisa que sabem fazer é disfarçar a ignorância fazendo ar de arrogância. Pros demais rapazes ao redor igualmente tapados, acham que o outro está abafando, mas pros adultos só faz irritar, e deles ganham a fama de jovens noiados.
Esses rapazes não tem noção nenhuma de sexo, olham um pornozinho vagabundo baixado na internet e já se acham entendidos de sexo. Não sabem como nem aonde uma mulher sente prazer, acreditam que só por terem pênis e fazer jeitão machão já dariam conta na cama. Fazem sexo igual como um animal faz, sem ter muita noção do que está fazendo. Daí porque eles não usam preservativo e são surpreendidos quando a parceira engravida e viram pais tão jovens (difícil um jovem pobre manauara de 21 anos não já ser pai!) e pra cuidar desses filhos são um desastre, pois não têm maturidade nenhuma pra repassar.
E esses rapazes não amadurecem. Eu vejo eles serem assim aos 19, 21, 23, como se fossem os vampiros de crepúsculo, eternos adolescentes. Só que até os vampiros da saga-filme se comportam como gente nas escolas. Os rapazes manauaras parecem uns animais selvagens imprevisíveis, dando a impressão de não estar num ginásio escolar e sim numa Febem ou centro de detenção de menores infratores. E essa situação é muito perigosa pois dá munição pro discurso da Direita, que quer enfiar todos os pobres num enorme presídio, enquanto que a Esquerda faz deixar tudo como está.
Daí porque é tão difícil encontrar alguém pra ser meu marido, é difícil até mesmo eu me apaixonar. Como se apaixonar com um rapaz tapado, com jeito de marginal, que não tem nada pra dizer? Embora seja praticamente unanimidade moças e rapazes gays manauaras gostarem de rapazes do tipo "galeroso" (será por causa dessa unanimidade que faz todos os rapazes serem assim?), meu tipo de homem ideal é o inteligente, sereno, sonhador e idealizador. É um perfil de rapaz normal, mas inexistente no mundo pobre das escolas manauaras. Não sei se existe nas escolas de classe média, mas meu pai teve a estúpida idéia de me matricular em escola pública e hoje, além de pobre e sem pai, não existe EJA classe média pra adultos! Aliás, se eu tivesse cursado escola de classe média, eu nunca teria repetido a sétima série várias vezes!
E não é só na questão amorosa, tem também a questão de amizades, e essa vem em primeiro lugar. Como fazer amizades com rapazes hostis que são os rapazes manauaras? Como conversar com rapazes que nada tem a dizer, não prestam atenção na aula, não fazem as tarefas, só ficam conversando merda entre si, e quando são chamados atenção pelo professor balburciam expressões incompreensíveis, como se tivessem preguiça de falar? Eu não tenho como fazer amizade com gente assim! Daí prefiro mil vezes recolher-me na minha confortável solidão - pelo menos os rapazes personagens de ficções não são debilóides!
Talvez os rapazes anteriores à 1999 sejam os únicos que eu me lembre que seriam rapazes "com cérebro". Não tenho certeza, pois eram alunos do meu pai e talvez a educação dada pelo meu pai os tenham feito rapazes melhores. O problema é que eu já peguei uma geração estragada deste a segunda série, daí essa geração me acompanhou até no início do meu ginásio, e pra eu me livrar dela, pausei nos estudos. Só que aí era tarde demais, e as gerações posteriores nunca mais saíram desse comportamento-modinha de "rapaz galeroso". Passei pela sétima série de 2004, de 2007, de 2010 e agora a de 2016, e não adianta que os rapazes continuam iguaizinhos como eram em 1999!
Talvez os rapazes do Ensino Médio sejam diferentes - é uma suposição, e se baseia pelo fato de dificilmente um manauara chega ao Ensino Médio. Se não Ensino Médio, quem sabe a faculdade seja minha tábua de salvação. Se bem que eu já tentei relacionamento com um universitário e no final das contas ele não queria nem mais papo! Parece que o problema do rapaz manauara é por ele ser manauara. Isso explica porque eu amei tanto Brasília, me dei tão bem com pessoas de outros estados do país, e não consigo me dar bem com os da própria terra. É triste demais ser uma carta fora na sua própria terra!

terça-feira, 24 de maio de 2016

17 anos depois...

17 anos depois o Brasil está pior que no final os anos 90.
17 anos depois de 1999 presenciu como se eu tivesse andado, buscado e não ter saído do lugar. Presenciar mesmo depois de 13 anos do Partido dos Trabalhadores no poder resultar em um governo do PMDB aonde as coisas voltaram à estaca dos anos 90 é uma frustração, lembrando que a eleição de Lula em 2002 encheu de esperança que tempos melhores viriam.
Mas o resultado frustante está também pelo fato de parecer que em 13 anos o próprio PT não foi capaz de consolidar até mesmo as migalhas de melhorias que conseguiu fazer. Deixou até isso (as melhorias) muito frágil, ao ponto de elas se desfazerem com um estalar de dedos, bastando outro partido (que escolheu pra ser aliado, diga-se de passagem) assumir poder. Fez de propósito, acreditando que garantiria a permanência eterna no poder. E o certo é pensar na população, e não no poder. O PT errou e agora pagamos o preço.
Mesmo nos anos 90 as pessoas tinham consciência da necessidade de políticas públicas. Hoje as pessoas foram convencidas por jornais da TV e páginas de Facebook como se políticas públicas fossem privilégios ou "desperdício de dinheiro com supérfluos". Os brasileiros ficaram com medo da mudança e decidiram voltar aos anos 90, talvez porque o sofrimento é um conhecido.
17 anos depois ninguém foi capaz (nem PT, nem Esquerda) de mudar a tendência e o talento que a população brasileira tem de amar o conservadorismo. Tentou-se comprovar que homossexuais e transexuais também são gente, mas bastou parecer que as pessoas estavam conseguindo compreender isso pra a Direita se mexer, contornar tudo, e toda compreensão ir pro ralo abaixo, com um simples ressuscitação da tática do espantalho da época da Idade Média, de inventar que homossexuais e transexuais querem muitos direitos ou privilégios; como se poder completar os estudos sem sofrer violência escolar fosse privilégio quando é pra homossexuais e transexuais, mas um direito para os heterosexuais ao mesmo tempo! São invenções insustentáveis para qualquer um com um mínimo de senso crítico, mas depois de 17 anos a população brasileira continuou com o mesmo péssimo ensino escolar da época de Amazonino Mendes (caso político do Amazonas) e nem PT nem Esquerda conseguiram resolver isso!
17 anos depois ainda é um enorme tabu, em Manaus, um homem cis (heteronormativo) sentir atração ou assumir namoro com um transexual feminino pro masculino (homem trans) que gosta de homem invés de mulher. Pior foi presenciar até mesmo categorias da causa LGBT boicotando a causa dos homens trans: gays com ciúmes da sua visibilidade de carro-chefe da sigla, impedindo dos demais também terem sua visibilidade (transformando a causa LGBT em "GGGG") e lésbicas achando que homens trans seriam "lésbicas confusas"; lésbicas até hoje com dificuldade de reconhecer que aquelas pessoas, biologicamente mulher trajando roupas masculinas e atraídas sexualmente por mulheres, nunca foram mulheres lésbicas, e sim homens trans!
E os homens trans, que até hoje muitos ainda preferem viver "escondidos", dando um jeitinho e se conformando aqui e ali. E quando começa a surgir muitos a se revoltarem e iniciar o seu ativismo, a Direita ganha força política, ameaçando fazer aqueles que pensavam em "sair da toca" mudarem de idéia (na vida real, homens sempre foram mais medrosos que as mulheres).
Eu não quero voltar a viver escondido da sociedade. Perdi a adolescência e a juventude fugindo de problemas esperando que com o passar dos anos as coisas mudassem e elas não mudaram. Impossível viver como um assexual aos 30 anos. Ficou mais impossível ainda depois da decadência do mercado da música, onde até a música evangélica virou "barulheira", disputando com a "música secular" quem conquista mais com a pior música.
17 anos e o brasileiro não resolve seu problema de sanguismo-de-barata. Esquerdistas brincando de fazer ativismo realizando "manifestações" em praças e o mais pacífico possível porque morrem de medo da PM, morrem de medo de ativistas que jogam coquetel molotov na PM e quebram vidraça de banco. Ativistas que tem medo de explicar o que é Esquerda para as pessoas, enquanto páginas de Facebook e emissoras de TV caluniam e denigrem o comunismo, a tática black bloc e enchem a cabeça dos brasileiros de porcaria. Esquerdistas se fechando em sindicatos, partidos, conferências, enquanto que as ruas são tomadas por exércitos de manipulados pela Direita.
17 anos e o Amazonas não consegue sair do estigma de se conformar de seus problemas por migalhas de políticos, muito menos de parar de pedir que os políticos os olhem "com carinho". Enquanto que a ascenção progressista começa a surgir no Nordeste e no Centro-oeste do país. Até mesmo a região Norte começa a despertar pra vida. Paraenses obrigaram a taça da Copa de 2014 a sair do estado mais rápido, enquanto que os amazonenses estão satisfeitos com o Rock In Rio Manaus.
No constatar das coisas o Brasil nunca mudou em 17 anos. A população brasileira tem muito apego ao passado. Temos mais medo da mudança do que do sofrimento que passamos. O brasileiro ainda prefere negociar uma convivência com seus problemas porque morre de medo de morrer. Os homens preferem passar a amar o status social mais do que as pessoas, morrendo de medo do que as outras pessoas vão pensar dele de mãos dadas com uma pessoa trans ou uma mulher que não faça o tipo "boazuda".
2016 é o ano do Brasil vivo em uma crise geral; a crise econômica e política é apenas resultado de uma crise social, gerado pela capacidade assustadora do brasileiro viver como se estivesse em uma loop do tempo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Briga entre torcidas de futebol são fruto da intolerância da sociedade brasileira.

Chamou minha atenção a notícia de medidas tomada por autoridades do estado de São Paulo (São Paulo como sempre é o estado mais vergonhoso do Brasil. As pessoas de lá são piores do que os manauaras.) pra tentar impedir briga entre torcidas de futebol paulistanas, e em como o debate sobre o assunto ainda está tão longe da raiz do problema, pois a televisão, desonesta, não expõe a verdadeira raiz do problema, que é a incapacidade do brasileiro de tolerar o diferente.

O problema se reproduz no campo do futebol, como já se reproduz no campo LGBT, mulher, negro e demais categorias. O brasileiro é uma pessoa que odeia o diferente, acha que diferença é um defeito e que todas as pessoas tem que serem iguais e pensarem iguais umas às outras. Existe esse confronto entre torcedores porque a sociedade brasileira tem uma cultura interna de ver o diferente, a opinião contrária ou gosto contrário como um inimigo que tem que ser aniquilado.

As autoridades (ou seriam otoridades?) ao tomarem tais medidas como perdidos sem saberem o que fazer, nota-se não um ``reconhecimento da incompetência de combater a violência e garantir segurança´´, e sim o reconhecimento de uma incapacidade de perceber o óbvio, que é a incompetência do combate à discriminação. E proibir torcidas adversárias num mesmo estádio, além de incompetência, é admitir e até consentir que a nossa sociedade é incapaz do brasileiro de tolerar o diferente; uma vergonha de deixar qualquer sociedade mais civilizada creda que somos um bando de selvagens irracionais.

E incapacidade do brasileiro de tolerar o diferente não se resolve (somente) com punições rigorosas. O crime de intolerância não está ligado à uma ``mente criminosa´´, e sim a uma alienação. Um dos motivos que não se aprova a lei criminalizando a homofobia é o fato do brasileiro ainda acreditar que LGBTs são ameaça e que devem ser combatidos. Quando essa idéia cair por terra, a própria sociedade vai frear qualquer tentativa de homofobia. Ora, os torcedores fanáticos ainda acreditam que é dever cívico rebaixar, humilhar, agredir, bater, espancar ou mesmo matar o torcedor adversário! O torcedor fanático quebra vidros do metrô acreditando estar sendo um herói defendendo o time! Se for preso, então, vai se sentir um mártir! Punições rigorosas ou essas medidas não mudarão a forma de pensar dele, ele apenas as verá como um desafio a mais a ser vencido no seu ``dever´´ de aniquilar o torcedor adversário.

Não adianta você acreditar no ignorante do Datena dizendo que ``não são torcidas e sim facção´´, pois Mancha Verde e Gaviões da Fiel não são como os personagens da facção da novela das 9 da Rede Globo. São sim torcedores. São torcedores fanáticos. O G1 fala de 50 (Cinquenta!) torcedores presos! Ou seja, 50 pessoas cometendo crime ao mesmo tempo? É anormal, beira o surreal. Torcendo que isso seja mais um daqueles exageros de imprensa, mas caso for verdade, é um dado de demonstra sintoma de histeria coletiva. E histerias coletivas não se combatem com medidas nem leis duras, e sim no combate à alienação que está levando 50 pessoas a transformarem a rua em ringue e acharem que estão arrasando com isso.

Não adianta o ignorante do Datena perguntando porque não se acaba com a torcida organizada, porque o motivo é bem simples: não se pode impedir as pessoas de se organizarem! Torcida organizada não é um órgão ou entidade, e sim pessoas que se organizam através de vários meios, vai de internet até uma reunião em um ponto de encontro marcado até. E pessoas se organizam tanto pro mal quanto pro bem. (Sinceramente, o Datena tem uma capacidade incrível de emburrecer as pessoas!)

A medida mais ignorante e também a mais absurda é a de torcida única no estádio, ou seja, apenas um dos times entra e assiste a partida. Primeiro que é institucionalizar um apartheid com os torcedores: Se odeiam? Vamos manter separados! Acabar com o ódio entre eles? Não, vamos manter separados! Vão fazer o mesmo que faziam com os negros: separá-los dos brancos! E o mesmo filme que a gente vê em outros casos:

Acabar com o racismo? Não, vamos separar os negros dos brancos!
Acabar com a homofobia? Não, vamos separar os homos dos heteros!
Acabar com o machismo? Não, vamos separar as mulheres dos homens!
Acabar com a transfobia? Não, vamos separar o(a)s trans do(a)s cis, deixando as pessoas trans sofrerem bullying até desistirem dos estudos!

Incrível como a primeira coisa que essa medida me fez lembrar foi a atual rivalidade entre direitistas e governistas, aonde semana retrasada as autoridades pediram pra que direitistas não façam manifestação no mesmo dia e menos ainda no mesmo local das manifestações governistas, pois a rivalidade e o maniqueísmo político está num ponto de ebulição tão grande que direitistas estão com vontade de tirar sangue dos governistas (e também há governistas querendo fazer o mesmo com os direitistas). E isso que acontece no meio político também é reflexo dessa gana do brasileiro de viver em sociedade baseado no ``nós contra eles´´.

Segundo, que isso só impede confronto no estádio: não adianta nada impedir confronto no estádio se eles podem se confrontar fora dele, nas ruas. simplesmente continuaram a se enfrentarem nas ruas e os banhos de sangue vão continuar!

Sobre as demais medidas

Proibição de organizadas com identificação - não vai adiantar, pois a torcida organizada vai criar outras formas de se identificarem, inclusive um código só entre eles, e isso vai ser pior pra polícia conseguir identificar quando os grupos rivais estarão se aproximando um do outro e prestes a entrarem em confronto.

Ingresso apenas pela internet - trata-se de um cadastro de torcedores, pois pra comprar o ingresso vai ser necessário digitar o CPF, ou seja, praticamente as pessoas vai ser pré-fichadas pela polícia por estar comprando o ingresso! Olha que bacana! E quem não for assistir ao jogo, e sim ficar do lado de fora esperando a torcida rival sair, como vai ser fichada? Como os caras não pensaram nisso?

Todas essas medidas serão em vão. São medidas do tipo tirar sofá da sala: elas não vão combater a idéia que está na cabeça do torcedor fanático de ver o torcedor contrário como um inimigo a ser aniquilado. De levarem o futebol e o time de futebol como a coisa mais importante do mundo; mais importante até do que a vida das outras pessoas. Mas o quê se esperar de um país aonde TV fala que vidro de banco é mais importante do que vidas, e pessoas consentem sem questionar?

Aliás, é esse mesmo o problema: falta de amor ao próximo. A partir do momento em que o brasileiro passou a odiar as pessoas porque elas possuem diferenças, e a transferir afetividade em um jogo supérfluo, os problemas começaram. Chegamos ao ponto de o homem hetero brasileiro gostar mais de futebol do que de uma mulher. O homem hetero brasileiro hoje achar mais ``da hora´´ assassinar um torcedor adversário do que transar com uma mulher!

Nem a televisão nem as autoridades estão dispostas a enfrentar a origem do torcedor fanático pois isso vai mexer com o tradicionalismo da sociedade brasileira, e aqui tradição é igual à divindade. A televisão de novo vai repetir (a tática de enfiar idéias na cabeça das pessoas: repetir, repetir, repetir...) como solução aprovar leis mais severas (Eduardo Cunha?) e as datenetes vão repetir feito papagaios-de-pirata, e os banhos de sangue vão continuar. E agora com um agravante: com a separação de torcidas, o ódio e a intolerância do torcedor diferente será institucionalizado, e sendo institucionalizado, ficará mais difício ainda combater tudo isso.

Nota: Pelo visto os times de futebol nem pensam em orientar suas torcidas a não baterem nem matarem em nome do time (Os clubes são responsáveis pelos seus times.). Provavelmente eles lucram com isso, e do jeito que todos esses times estão endividados até os pêlos do furico, aí que vão mesmo deixar tudo como está.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Ouvi da boca de uma mulher o que jamais ouvi da boca de um homem.

Cresce a crença de que eu acabe "desenvolvendo" uma bissexualidade depois de tantos anos sendo desprezado e odiado pelos homens. Como sempre, mulheres não possuem aquela mente bagunçada dos homens, e há uns dias acabei ouvindo da boca de uma mulher aquilo que tanto ansiei ouvir da boca dos homens, mas jamais nenhum deles falou nada parecido.

Pelo contrário: homens falaram pra mim as piores coisas que eu queria ouvir, como "você não tem nenhuma chance comigo", "bichinha feia", "doida", "bruxa", "satanás", etc, etc, ... Já me falaram que "do tipo que você é nenhum homem vai te querer", como se eu fosse uma espécie de pessoa totalmente diferente dos demais, e diferente em contexto negativo. Como se eu fosse uma sobre-pessoa, uma mutação ou alienígena, e que ninguém seria capaz de compreender ou conviver junto.

Daí do nada aparece essa mulher, claramente interessada por mim, que chegou a dizer coisas tão maravilhosas que eu jamais vou esquecer, que chegaram ao anseio do meu "coração". Ela simplesmente disse, resumidamente, que o meu jeito é encantador.

Incrível como mulheres possuem uma capacidade que homens cis não tem, que é a capacidade de elogiar ou admitir que tal peculiaridade da tal pessoa a causa atração. Pros homens, parece que admitir isso causa neles diminuição, humilhação ou inferioridade na masculinidade, ou sabe-se lá que se passa na cabeça deles. Eu sinceramente não entendo isso, nunca me senti menos masculino em admitir gostar de alguém. Homens brasileiros tem problema sério...

Mulheres não tem necessidade de manter as aparências, não tem ânsia de provar "feminidade-alfa", nem se importam com status social. Mulheres não tem medo do diferente: aceitam relacionar-se com outras mulheres, com Homens Trans e até com Mulheres Trans! Mulheres não se importam com o que os outros vão achar - elas não são escravas da vontade dos outros!

Passei 16 anos procurando, desejando e até necessitando de um homem que se sentisse encantado com o meu jeito de ser. Nunca encontrei. Teve homem que disse que meu jeito de ser é estranho. Teve homem que fugiu com medo do meu jeito de ser. Teve homem que disse que meu jeito de ser pra sempre irá afastar as pessoas (a forma como eles falam parece tal qual jogar uma maldição!). Encontrei o que eu tanto procurava de uma outra fonte: uma mulher!

Sinceramente, eu não sei porque eu sou um Homem Trans gay! Eu não sei daonde que vem meu tesão por homens, se eles - ao menos os brasileiros - me odeiam, gostam mais de status social do que de afetividade, são covardes pra caramba (eu sempre achei que coragem é prova de masculinidade!), e vários inclusive estupram! Parece que eu criei na minha cabeça uma idéia de superioridade masculina que não existe. Corpo de homem pode ser a perfeição, mas a personalidade é uma merda, e não compensa o corpo. Talvez se eu não tivesse tanto nojo do meu corpo de mulher, eu seria um Homem Trans feliz, ao lado de uma mulher, e essa eu teria certeza que ela me ama/amaria! Me sinto confuso por estar procurando afetividade aonde não tem, e a encontrar aonde eu não queria encontrar.

Talvez meu destino seja passar por um processo, aonde minha própria orientação sexual vai "se mancar" ou se adaptar, e eu terminarei a idade-limite com uma cônjuge mulher. Já aconteceu muito na minha vida, de eu sonhar com uma coisa e quando eu chego lá descubro que o que eu sonhei não era aquilo que eu pensava que fosse, não é aquela "maravilha".

Queria dizer pra essa mulher que eu sou agradecido de coração pelas palavras que eu estava tanto necessitando. E que se possível for, ter a capacidade de buscar a felicidade aonde ela está. E ela parece não vir de um homem, e sim de uma mulher.

sábado, 19 de março de 2016

Surpresa não é jovens serem conservadores, e sim jovens serem progressistas!

Nesses últimos tempos as pessoas mais progressistas questionam até com certa admiração do porquê ultimamente há tantos jovens conservadores ou mesmo reacionários. A gente pensa que só pela pessoa ser mais jovem logo ela seria mais mente aberta e portanto mais disposta a entender o que é diferente. Mas eu já fui desmistificado dessa ilusão deste muito cedo, e sei bem o porquê e como essa tese não procede.

Vejam meu exemplo: sempre sofri bullying escolar pelos colegas da escola, tanto pelos da mesma sala de aula quanto das outras salas da escola – praticamente TODA a escola me odiava. As crianças e os jovens da(s) escola(s), tanto meninos quanto meninas, me consideravam uma pessoa louca só pelo fato de eu gostar de estudar e por eu não demonstrar nenhuma feminidade (referente à minha transexualidade). Sim, eram crianças e jovens manauaras, e suas mentes eram tão tacanhas e fechadas quanto as dos seus pais e mães, avôs e avós. Isso porque as futuras gerações tendem a ser as mesmas coisas que os seus antecessores. São raros aqueles que questionam os pais e têm coragem de seguirem pensamentos divergentes aos deles, como eu: o brasileiro é muito sangue-de-barata, e é necessário muita revolta (ou seja, a pessoa sofrer muito nas mãos dos mais velhos) pra o mesmo ousar a desafiar pensar diferente de seus pais e suas mães. É muito mais confortável pra qualquer criança ou jovem ser igual aos seus pais do que sofrerem golpes de cinto no lombo até urinarem!

E confessemos, a sociedade brasileira sempre foi fã do conservadorismo. Conservadorismo é uma zona de conforto, e as pessoas morrem de medo do diferente. Parece que pro o brasileiro descobrir o diferente é como descobrir a morte! E novamente é pelo fato do brasileiro ser podre de medroso. Parece que nossas veias são carregadas de medo!

Daí que eu não só aprendi que adultos são pessoas ariscas de se lidar, como crianças são piores ainda. Jovens então, nem se fala! Foi por causa disso que eu me dava melhor conversando com adultos do que com crianças e jovens. Na minha adolescência eu comecei a ganhar algum respeito dos adultos pelo fato de não ser mais uma criança, e tive bem mais amizades com adultos do que com jovens da minha idade, que eram tal qual o esteriótipo de retardados e porra-loucas que há na mente dos adultos.

Quando assumi minha transexualidade, os adultos eram os que mais me respeitavam, ou mesmo me compreendiam. Nesse tempo eu tentava completar os meus estudos no período noturno, e o bullying que sofri vinha somente dos jovens!

Essas experiências acabaram influenciando em minhas decisões e escolhas, e inclusive fazendo tomar decisões e escolhas que acabam erradas, como o mais curioso que aconteceu nas revoltas de Junho de 2016, quando tive que escolher entre dois grupos qual deveria me entrosar. Havia dois grupos de ideologias diferentes e eu não sabia qual era o mais progressista e qual era o mais conservador, e eu queria ir para o mais progressista. Um era de jovens e o outro era de adultos. Por causa da péssima experiência que tive de jovens, de experiência de que jovens seriam naturalmente conservadores, e com medo de aqueles jovens me achincalharem ao descobrirem que sou transexual, eu me uni ao grupo de adultos. Tempos depois me dei conta que fiz a escolha errada, que aqueles adultos eram classes médias conservadores, e só depois que migrei para o grupo dos jovens, estes sim mais progressistas!

Mas até hoje meu medo e aversão aos jovens persiste, e muitas vezes é reafirmada. Não existe nenhum rapaz da minha faixa etária que queira ser meu namorado, enquanto que encontro homens de 40 ou 60 anos que não negariam namorar comigo. Há pouquíssimos jovens progressistas em Manaus.

Por isso não me assusto nem um pouco com jovens reacionários como Kim Katagury (aquele moleque que faz careta-de-bunda e acha que tá arrasando com isso!) & Companhia. Aqui em Manaus então, é natural jovens serem reacionários! Mesmo que os jovens de hoje sejam de outra geração, pois como eu já expliquei em outra postagem deste mesmo blogue, a sociedade brasileira, ao menos a sociedade manauara, não muda com o passar dos anos. Os jovens desta geração provavelmente são os filhos daquelas crianças reacionárias que zombavam de mim na escola. E como os filhos tendem a serem iguais aos pais, daí não haveria de ser diferente!

O nosso grande problema é que a nossa sociedade tem horror em discutir ou revisar tabus. Se em 1999 as pessoas tinham horror de pessoas da família se revelando transexuais, em pleno 2016 isso ainda existe. Ninguém tem coragem pra entender o que é a transexualidade, preferem fugir do assunto como o Diabo foge da cruz. O medo é passado de geração a geração, como se o sanguismo-de-barata do brasileiro fosse uma coisa hereditária. Se isso nunca for quebrado, pode ter certeza que as próximas gerações de crianças e jovens continuarão sendo tão reacionárias e conservadoras quanto as de 1999!

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O homem do sonho e o homem da vida real.

Acabei de sonhar em que um homem que eu esperava de repente aparecia, descia as escadas e viesse ao meu encontro. Nesse sonho eu pude conversar com o homem que ele adorava, ele não se aborrecia; eu falava as coisas pra ele e ele gostava. Depois ele ia embora feliz por me encontrar, e eu mais feliz ainda, esperando o próximo encontro que seria maravilhoso.

No sonho é possível se aproximar dos homens sem que eles fujam, e muito fácio tudo dar certo. Mas na vida real, o homem ficaria irritado em me ver, tentaria terminar a conversa o mais breve possível e iria embora a passos largos, com raiva daquela "machuda" lhe "encher o saco". Como assim "encher o saco"? Pros homens, não importa como é a pessoa, mesmo que ela seja uma pessoa maravilhosa: se for um transexual feminino pro masculino (Homem Trans), ele já a corta da sua lista de convívio social, porque pessoas trans são consideradas "aberrações" sociais, indignas de convívio social, e quem estar junto com elas se torna igualmente "aberração".

No sonho os homens são mais receptivos, vêem as diferenças como o colorido do mundo e eu não preciso estar analisando o que eu vou dizer por dez vezes pra finalmente ter coragem de falar. E isso não é só coisa minha: qualquer pessoa sonha em ter uma vida social feliz. Mas só comigo os homens são incrivelmente hostis, se aborrecem com minha simples presença e por qualquer coisa que eu diga, e tratam minha transexualidade como uma doença de pele contagiosa. Parece que o simples fato de perceberem que sou transexual os fazem me odiar, da mesma forma que um racista odeia o negro só de ver que a pessoa é negra.

De que outra forma se explica o eterno desprezo dos homens, de eu estar próximo dos 30 anos sem nunca ter namorado? Não foi falta de gentileza, nem aparência física, pois meu sorriso é lindo e as lésbicas são loucas por mim. Só dos homens eu sinto esse ódio contra mim vindo do nada, sem motivo nenhum.

Eu fico imaginando qual a dificuldade de um homem ser receptivo. Não sei se é só os manauaras que são escrotos assim, ou se o homem brasileiro é normalmente assim, chato e desumano, e eu acabei criando a imagem de um marido que simplesmente não existe. E se sim, não foi só eu que criei uma imagem de homem brasileiro que não existe: novelas e filmes brasileiros também retratam homens que, na vida real aqui em Manaus, nunca existiram ou existiriam.

Nos sonhos parece tudo tão fácio conseguir encontrar e viver o amor de sua vida, mas quando chegamos à vida real, uma série de regras idiotas são impostas pra que se possa ter direito a um marido, como a de ser feminina (e bastante feminina) e se vestir de acordo com o sexo genital. Os homens também impõem para si mesmos regras inúteis, como a de ter status social de "macho-alfa", e deixar de lado o amor e a afetividade.

E daí pergunto qual é a necessidade disso tudo, pra quê regras inúteis que só impedem a afetividade de uns com os outros? Mas as pessoas não pensam, aceitam sem questionar porque "se é assim, logo deve ser assim". Ou os homens odeiam afetividade, sendo pessoas sem sentimento. Mas daí quem não tem sentimento é psicopata, e os homens ficam nervosos caso falemos isso.

Nos sonhos consigo viver o que a vida real não permite, daí é perigoso porque há a tentação de se refugiar nos sonhos, enquanto na vida real os problemas continuam e não serão solucionados do nada, e o tempo continua passando e eu envelhecendo sem amor. Mas como resolver, se os homens não querem? Parece que vivo numa prisão, e aonde eu olho e procuro, não há saída.

"Ele de repente vem, como quem muito esperou seu amado chegar e de repente ele consegue o que tanto deseja; e meu coração se encheu de vida, ao presenciar o sonho tornar-se realidade."

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Ainda não saímos de 2012. Muito menos de 2004 ou 1999.

4 anos depois de 2012, sofro mais uma rejeição amorosa, e sinto como estivesse de volta em 2012. E tem mais: a rejeição foi muito semelhante, quase idêntico, a uma que eu já passei mas que eu não tinha segundas intenções. A impressão é que eu vivo no passado, e esse passado nunca acaba.

Aliás, parece que a sociedade brasileira vive no passado, gosta e faz questão de viver no passado. A sociedade já mostra isso politicamente, quando vemos que a sociedade continua tão conservadora quanto há 25 anos atrás, que coisas como ameaça comunista, alienações dos anos 60 voltam a ser ressuscitados de 2013 à 2015. Imbecilidades desse tipo teimam em permanecer vivas, assim como a transfobia, a homofobia e o machismo.

Se em 1999 eu acreditava que era fácio demais um estupro acontecer à luz do dia, bastou hoje ter a liberdade de passear nas ruas à noite para que os homens que morrem de ódio de vagina se unissem na Internet pra fazer propaganda pela legalização do estupro, e até um deles tivesse coragem o suficiente pra gravar um vídeo ensinando homens a conseguirem estuprar.

Em 1999 eu já sabia que os homens odeiam quem tem vagina (mulheres cis e homens trans). De lá pra cá já se passaram 17 anos e os homens continuam a resmungar de um "mundo vaginante". Homens ditos heteros só se casam com as mulheres porque a regra social cobra, pra que tal homem prove ser "macho-alfa". E quando se casam, é só com mulheres femininas. Homens trans nem com nojo.

Curiosamente há a impressão de homossexuais afeminados a se assumir nas ruas manauaras aumentar. Tipo como se o narcisismo já estivesse tão alto ao ponto de fazer homossexuais afeminados se assumirem mais rápido, pra não terem que passar pela obrigação de se casar com uma odiada vagina pra terem que provar "masculinidade-alfa" ou "heterosexualidade".

O mesmo  bulliyng transfóbico que pessoas trans ouvem na rua hoje ("É homem ou é mulher?") já era ouvido nos anos 90, e também foram ouvidas de 2000 à 2010. O bulliyng homofóbico e transfóbico já existia nas escolas manauaras em 2000. Passou-se os anos e a homofobia e transfobia permaneceram. Mesmo quando decidi voltar a tentar completar os estudos, em 2010 ainda sofri transfobia. Em 2000 me tachavam de doida por não ter nenhum comportamento feminino. Em 2004 vieram as cobranças de feminidade pra poder namorar: passou-se 8 anos e em pleno 2012 um homem me joga na cara que nunca ficaria comigo por eu não ser feminina.

Daí tudo continua igual ao passado, incrivelmente intacto. A sociedade envelhece e os homens continuam iguais. Eu envelheço e vejo os homens de 2016 serem exatamente iguais aos de 2012, que eram exatamente iguais aos de 2007, que também eram exatamente iguais aos de 2004 e este também eram iguais aos de 1999! É como se vivêssemos em uma loop do tempo, aonde não só o tempo seria o mesmo, as pessoas também seriam as mesmas com o passar dos anos, e as gerações também iguais umas às outras. É como se os homens fossem pokémons que se recusam a evoluir, e meras cópias uns dos outros.

E parece que nenhum homem se cansa disso, ou que os que se cansam resolvem se assumir homossexuais e partem pra se assumirem também afeminados, gerando um inchaço de homossexuais afeminados que provavelmente irão querer homossexuais machões, e não irão ter. E no meio disso ninguém se assume bissexual nem transafetivo, pois o maniqueísmo continua sendo adorado pelos brasileiros.

O que acontece é que todas as vezes que há a chance da sociedade rever seus tabus, imediatamente acontece uma contra-partida e todos se retraem, preferindo manter tudo com está. É o que acontece quando o movimento LGBT e feminista (porque homofobia e transfobia são filhotes do machismo) parecem conseguir fazer a sociedade rever seus preconceitos, daí conservadores reagem e fazem a sociedade se retrair e continuar nas suas convicções passadas.

Quando gays estão próximos de terem seus direitos assegurados, procuram fazer a homofobia resistir com retóricas sem-pé-nem-cabeça como "gays querem privilégios"; agora com o crescimento do ativismo trans, unem munição contra, como dizerem que a cirurgia de mudança de sexo impede demais atendimentos médicos. Quando o feminismo parece estar conseguindo fazer as pessoas refletirem sobre o machismo, a televisão se enche de programas humorísticos cujo ``humor´´ é tentar transformar o ato do estupro numa coisa engraçada - como foi a entrevista de Alexandre Frota no Agora É Tarde, da Band - ou tentar comparar ato de doação de leite humano à pornografia - como foi no programa de nome inglês apresentado por Danilo Gentili, no SBT, - chegando ao ponto de até desmoralizar atos de caridade.

Da mesma forma, programas de humor, que disfarçam o bullying em verniz de humor, continuam a apresentar pessoas trans como se fossem aberrações dignas de risos. Hoje é o Homem Trans do Pé-Na-Cova, mas antes tinha um Homem Trans no Zorra Total, e já tinha piada contra Homens Trans em 1999 na Rede Globo. Deste lá a televisão trabalhou o seu público pra enxergar o Homem Trans como uma aberração digna de risos, e a sociedade repete essa afirmação no convívio social feito papagaios-de-pirata.

Daí fica inviável esperar que os homens de 2012 ou 2016 sejam diferentes dos de 1999 ou 2004, porque a propaganda anti-trans continua por gerações.

Em 2013 parecia uma oportunidade da sociedade brasileira amadurecer e progredir, mas a imprensa fez uma força-tarefa pra desmoralizar as manifestações (chamando de vandalismo até terrorismo, como se destruir vidros de bancos fosse semelhante a matar dezenas de vidas como faz o Estado Islâmico). E as cabeças da neo-direita fizeram centenas de analfabetos políticos de classe média acreditarem em ameaça comunista. Na televisão aumentou-se os piores programas de TV, incluindo os programas humorísticos sem graça, e todos resolveram voltar aos modismos de sempre.

Tudo é feito pra impedir que nunca saiamos de 2012, 2004 ou 1999. A própria sociedade tem medo de sair do passado, medo do diferente, pois o conservadorismo é um conhecido, já sabe como ele é, já vive com ele e portanto não tem medo, como uma pessoa se acostuma com uma situação ruim e passa a ter medo de sair dela. O brasileiro em si é um medroso, como diz no popular, "sangue de barata".

Enquanto a brincadeira continua, a previsão é que em 2018 continuará tudo perfeitamente igual, e chegarei ao absurdo de completar 30 anos sem nenhum parceiro, sem sequer ter tido um único namorado.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O fato de eu ter vagina não me faz menos desprezado pelos homens.

Um colega gay recentemente descobriu que minha preferência sexual é por homens, diferente da maioria esmagadora dos Homens Trans, que é por mulheres. E claro, com isso descobriu também que sofro (demais) com isso, pelo fato de eu não agradar nem aos homens gays (pois não tenho o que eles querem, que é o pênis) e nem aos homens heteros (pois eles querem mulheres femininas), e com isso eu estou no limbo do limbo da margem à sociedade. O interessante nisso é o que ele me disse. Que, apesar da complexa condição de Homem Trans gay, que eu teria uma "vantagem", que é de possuir vagina e capacidade de reproduzir.

Eu sei que ele falou isso pra tentar me ajudar e é o melhor do que ele sabe da sociedade. Eu também queria que ele tivesse razão (Ah, como eu queria...) ... mas a realidade é outra e bem pior como imaginamos!

É interessante como as pessoas chegam a conclusões simples de coisas que parecem simples, mas a realidade é que a mente social do homem brasileiro é muito complexa, e os homens heterosexuais, por mais que digam que aceitariam namorar um homem trans (sim, já recebi um comentário falando isso!), a prática é bem diferente, pois o pensamento deles é outro e complexo.

Primeiro, porque nem os homens ditos heterosexuais gostam de mulher. Explico: o homem brasileiro, mesmos os heteros, são narcisistas. Ou seja, eles gostam é de um igual à eles. É por isso que os homens preferem estar com amigos bebendo ou assistindo futebol (que é o jogo aonde 22 machos correm atrás de uma bola) do que estarem com uma mulher. Homem brasileiro odeia mulher, odeia vagina, odeia quaisquer coisa feminina. Homem hetero brasileiro só se casa com mulheres por status social, nunca por amor. Pro homem hetero brasileiro, mulher é troféu de status de ``macho-alfa´´.

Segundo, essa que homens heteros preferem vagina é uma mentira que já vem sendo desmascarada nos últimos tempos. O que mais se vê é homens heteros desdenhando de vagina. O que mais tem na internet são homens heteros xingando vagina de fedorenta ou termos bem grotescos mesmo, como "depósito de esperma". Meu pai que se dizia tão heterozão vivia comparando vagina a um esgoto. Hoje os homens heteros cobram sexo anal de mulheres cis. Se uma mulher cis recusar fazer sexo anal hoje em dia, corre o risco de perder o namorado!

O terceiro, que seria a possibilidade do Homem Trans de gerar filhos de um parceiro Homem Cis, soa um apelo à reprodução, coisa de cristãos e demais conservadores, que não deveria ser proposta pra Homens Trans. Primeiro, nos reduz a uma reles "máquina de reprodução". Segundo, que um homem ficar com alguém só pela possibilidade de reprodução não está ficando por amor, e sim só ficando com um(a) reprodutor(a), só tendo em mente ter filhos! De que adianta eu me casar com um homem que não sonha em estar comigo, e sim nos filhos que poderá ter comigo?

E tem o terceiro que é a idéia da gravidez para nós homens trans é impensável - pelo menos em vários deles! E nisso inclui eu. Homens cis se vêem como privilegiados em não terem o peso da capacidade da gravidez. Homens acham insuportável (pra não dizer palavras mais fortes) a idéia de um bebê sair do meio das pernas... Como com Homens Trans isso seria diferente?

Outra coisa é que mesmo que Homens Trans gays possam gerar filhos pros seus parceiros homens cis, não adianta em nada se vivemos numa sociedade extremamente conservadora, que só admite como família homem cis e mulher cis como pai e mãe dos filhinhos. Essa sociedade vai achar lindo um homem cis ter como "mãe" de seus filhos um Homem Trans? Claro que não! A sociedade vai reprovar veementemente e nós sabemos como os homens brasileiros dão valor à opinião social acima de tudo, inclusive acima da afetividade!

Homens Trans não dão status social de "macho-alfa" pros homens cis. Ou seja, não servimos de "troféu", porque nem atrativos sexualmente somos considerados - pelo contrário, somos considerados "aberrações" sexuais! Homens heteros não querem se casar com "aberrações" nem que as mesmas possam lhe dar filhos. Eles também não irão querer que a "mãe" de seus filhos seja uma "aberração"!

A realidade é que homem brasileiro é uma merda, a sociedade brasileira é uma merda. Exigem demais por coisas sem importância.

Portanto, sem essa de "vantagem"! Não existe nenhuma vantagem em ser Homem Trans gay - é pelo contrário, estou em completa desvantagem! Se realmente fosse uma vantagem, eu não estaria solteiríssimo nos meus quase 30 anos, sem nenhum homem ter assumido algum sério comigo. Também nunca teria passado pelos desprezos que sofri dos rapazes da escola. Nunca teria sofrido com homem jogando na minha cara que nunca se casaria comigo por eu não ser feminina!

Homens Trans gays vivem excluídos da vida afetiva e as pessoas não vêem isso porque possuem uma ilusão de que os homens heteros os vêem como mulher, quando na realidade eles os vêem como mulher mas sem feminidade; e para os homens heteros, mulher sem feminidade não tem "valor marital" nenhum, pois mulher sem feminidade não dá status social de "macho-alfa" pra eles, coisa que o homem hetero brasileiro dá mais valor do que a própria afetividade!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Por que deu errado de novo?

Eu vinha comentando sobre o meu sofrimento na indecisão de tentar de novo conseguir um parceiro, no medo de ser desprezado mais uma vez pelo fato de eu ser transexual feminino pro masculino (Homem Trans). Não deu outra: recentemente uma tentativa minha de conseguir encontrar um parceiro foi fracassada. O homem me desprezou, igual como todos os outros.

Daí a mesma dor se repete, e mais uma vez me sinto como se estivesse na adolescência, quando sofri o primeiro desprezo. É como se eu estivesse ainda ali, e de lá não consigo sair jamais. E a sensação de que todos os homens são iguais, sem exceção, sendo perca de tempo procurar uma exceção da regra.

Já é muito difício me sentir atraído por um homem, e quando isso acontece, a mesma história se repete: ele me despreza pelos motivos mais insignificantes, como a transexualidade, como se transexuais fossem aberrações sexuais, e até mesmo por começar a gostar da pessoa, parecendo que os homens criaram fobia do amor dos outros (ser amado não seria uma coisa ótima?) e... nem eu sei dizer o que é. É como se o homem me odiasse sem motivo. Como se eu tivesse uma doença contagiosa que ninguém quisesse pegar.

Ultimamente o modus-operandi dos homens está sendo de forma diferente, mas curiosamente está sendo igual na forma, se repetindo de um homem para o outro, o que já indica um tipo de ``sinal de rejeição´´. Daí é só o sinal se repetir pra cair a ficha, se ver desprezado mais uma vez e se lamentar na solidão.

O modo é o mesmo: no início o homem se mostra receptivo, mas depois ele muda de personalidade e passa a te tratar com frieza e indiferença. Principalmente se você denotar ou ele achar que você está querendo alguma coisa com ele. E digo de experiência própria, os homens odeiam saber que tal pessoa está a fim dele! Eles querem que eles estejam a fim primeiro e conseguir conquistar a pessoa. Parece que eles se sentem menos ``macho-alfa´´ caso o contrário ocorra, pois eles enxergariam o processo de conquista como o homem conseguindo um prêmio - e esse prêmio é a(o) namorada(o) - e que se é a mulher (ou o Homem Trans) que conquista o homem, quem ganha o prêmio é a mulher (ou o Homem Trans).

E diga-se de passagem, é patético os homens tratarem relações afetivas como prêmios e fazer disso uma disputa! Afetividade é uma coisa pra ser vivida e desfrutada, não pra servir de ferramenta pra um jogo de disputa. Só mesmo numa sociedade de valores deturpados e invertidos, como a sociedade brasileira, pra fazer isso; a mesma sociedade que não conhece o amor, ou mesmo o amaldiçoa, principalmente quando ele está fora dos padrões da hetero-normatividade.

Aliás, homens detestam amor, acham que é coisa de mulher ou de bicha, só porque alguém disse que isso não faz parte da ``masculinidade-alfa´´. Daí não amam e também não querem ser amados. Eles só gostam do amor caso venha de uma mulher feminina que sirva de atestado de ``macho-alfa´´ pro homem.

Daí porque eles ficam irritados, frios e indiferentes quando vêem esse amor vindo de um Homem Trans, ou de uma travesti ou mesmo de uma mulher que não seja ``gostosona´´. Homens não querem se casar com um amor, e sim com um troféu, com alguém que lhe dê status social de ``macho-alfa´´.

``Ah, você está generalizando...´´ Não, não estou, porque há anos tento conseguir um parceiro, e toda a vez é a mesma frustração. Estou próximo de completar 30 anos e os homens continuam os mesmos há 15 anos atrás. E diga-se de passagem, continuam tão iguais que até o modo-operante deles são os mesmos: no início se mostram receptivos, mas depois mudam de personalidade e passa a serem frios e indiferentes.

Isso tudo faz com que eu viva preso numa espécie de loop do tempo, aonde jamais consiga sair de 2004, deste minha primeira frustração amorosa, e viva sofrendo frustração amorosa de todos os homens, não importa quantas tentativas eu faça. Daí tenho uma vida de merda, uma vida sem amor e lotado de solidão, enquanto que outras pessoas conseguem se casar cedo sem problemas.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Para os homens, Homem Trans não é digno de amor, mas digno de estupro.

Ser Homem Trans no Brasil é um calvário. Passamos por bullyng escolar, rejeição pela família, e como se ainda não fosse o suficiente, somos tido como aberrações sexuais. Transexuais, masculinos ou femininos, não são vistos como dignos de possuir marido ou esposa, sequer de possuirmos uma família, que a família só seria direito dos heteros, dos cis-normativos.

E quando se é um Homem Trans gay, ou seja, um transexual feminino pro masculino que, invés de gostar de mulher como a larga maioria, gosta de homem, aí ``o chumbo é mais grosso´´!

Isso porque mulheres, geralmente, não são machistas, não se preocupam com as aparências. Já o homem brasileiro vê no(a) namorado(a) ou cônjuge não como um(a) parceiro(a) pra toda a vida, e sim como um troféu de status social pra ser exibido pra sociedade, como prova de que tal homem é o ``macho alfa´´.

Não se admite isso, mas o homem brasileiro, principalmente o heterossexual, vê o casamento não como se unir com a pessoa que ama, mas sim como um status social, pra conseguir benefícios com este status social. Daí que homens não se casam por amor, e sim pra exibir a cônjuge como um ``atestado´´ de que ele é ``macho-alfa´´.

Daí porque sofro desprezo e rejeição por todos os homens, sem exceção. Apesar de eu ser uma vagina pra todos os efeitos, eu não sou feminina, e por isso, não sirvo pra dar ``status social´´ pra esses homens. Eles podem até mentir que se relacionar com uma ``machuda´´ seria igual a se relacionar com uma mulher cisgênero (feminina), mas na prática eles jamais namoram ou namorariam com uma.

Daí porque estou chegando aos 30 anos solteiro, sem sequer ter tido um único namorado. Mesmo que eu tente por diversas vezes.

É sempre a mesma coisa: eu tento chegar com um homem, ele de início se mostra sem preconceitos; mas depois ele muda, começa a ser frio e mostrar indiferença, e me rejeita. Sem o menor motivo aparente.

Um que chegou a me dar uma chance até parecia que me aceitaria, mas depois da relação, se transformou em uma outra pessoa e me rejeitou. E ainda jogou na minha cara que jamais ficaria comigo pelo fato de eu não ser feminina.

Ou seja, para os homens, transexuais femininos pro masculino (Homens Trans) são indignos de serem amados, pelo simples fato de serem transexuais. Além da sociedade brasileira fechar as portas ao acesso à educação e à convivência social, também fecham as portas pra realização amorosa dos transexuais. Daí somos condenados à solidão, É uma tragédia silenciosa.

Mas curiosamente, enquanto os homens me rejeitam amorosamente, outros almejam fazer sexo comigo, mas à força! Enquanto recebo ``não´´ todas as vezes que quero uma relação amorosa, outros homens, cujo não quero relação nenhuma, já me assediaram sexualmente, já me ameaçaram de estupro, e um até tentou levar o estupro a cabo! Já sofri perseguição de um lutador de jiu-jitsu que várias vezes me intimidava, me assediava e tentou me pegar de surpresa numa rua deserta.

Veja a ironia: se para os homens eu, um Homem Trans, não seria digno de ter um marido e de ser amado, ao mesmo tempo eu seria digno de ser estuprado!

Talvez porque estuprar pessoas trans não tiraria dos homens o status social de ``macho-alfa´´, por só haver sexo, e além do fato do estupro ser um ato de dominação contra a outra pessoa. Enquanto que atração afetiva, amor, na cabeça do homem, o diminuiria como ``macho-alfa´´ Ou seja, violência pode, mas amor não pode!

Que princípio moral absurdo é esse aonde o homem não pode amar transexuais, mas que estaria ``tudo bem´´ em violentá-los sexualmente? Que princípio moral absurdo é esse aonde pessoas trans não podem ser amados, mas podem ser violentados?

Ou seja, tudo bem eu ser desprezado, ser condenado à solidão, e se possível até ser estuprado, contanto que eu não seja amado?

É uma crise de valores. Valores trocados aonde estupro virou prova de masculinidade, e amor virou a negação de masculinidade. Valores trocado aonde se acha feio pessoas trans serem amadas por um homem, mas se acha aceitável que as mesmas sejam estupradas por eles! A mim não é permitido amor, mas o ódio, o sofrimento e a humilhação de um estupro é permitido.

Daí pense viver numa realidade assim, aonde homens não te olham como gente, aonde homens simplesmente te odeiam sem motivo. É a minha realidade de Homem Trans gay e a realidade de transexuais. Daí porque minha vida ser um inferno intragável, aonde não consigo encontrar amor em lugar nenhum, mas encontro ódio vindo de todos!

Daí como chegar aos 30 anos assim? Como viver mendigando amor dos homens, mas receber desprezo, rejeição ou até (ameaças de) estupro no lugar? É de enlouquecer qualquer um!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Minha Vida Como As Estações De Uma Árvore.

Uma das coisas que gosto de fazer atualmente é ouvir o áudio Palavra de Esperança do DVD Esperança de Diante do Trono, quando naquele momento a evangélica Ana Paula Valadão revelou sofrer em não conseguir realizar o sonho de engravidar e ter filho(s). Por sinal é poético como até o deus dos evangélicos pode ser maquiavélico com seus próprios adoradores, fazendo-os chorar bastante pra enfim depois conceder os sonhos deles. Pra quê isso? Pra testar fé? Pra fazer as pessoas implorarem nos pés dele? Crueldade tremenda!

O interessante é que tempos depois, o próximo DVD do Diante do Trono é feito com Ana Paula já grávida do primeiro filho, e depois de mais algum tempo ela tem o segundo. A resposta foi incrivelmente rápido se for pensar nos meus históricos de conquistas de sonhos, que chegam a levar tempo demais ao ponto de, quando elas se realizam, já não traz a mesma alegria que traria se fosse realizado mais cedo, porque a vida já tem mais o brilho de antes.

Eu gosto de ouvir a confissão porque ela é um retrato da minha vida atual, que vive num inverno deste 2012. Eu vejo e lembro da minha infância como a primavera da árvore, aonde tudo era tão bonito, as folhas eram tão verdes e cheios de vida pra viver. Os frutos eram tão bonitos de se ver – as criações que eu fazia nenhum outro jovem de Manaus fazia igual. Daí veio o inverno de 2012, quando a segunda frustração amorosa aconteceu, a mais pesada de todas, daí minha vida virou um deserto de lá em diante. E diferente do discurso da Ana Paula, a estação não mudou, e nunca mais esse inverno acabou. Ele veio pra ficar... provavelmente até o fim!

Hoje eu estou nesse inverno da árvore que já dura 4 anos, e com a certeza que tudo acabou. As coisas não são mais como antes, eu não consigo mais ser feliz sozinho, o mundo virtual que eu construi pra mim, pra compensar a falta de amor dos outros, não é mais suficiente, e a sociedade brasileira continua sendo conservadora igual em 1999 e 2000... Pessoas ainda acham que transexuais não são gente, que não merecem vida conjugal; as pessoas ainda são convictas que Homens Trans que gostam de homem (Homens Trans gays) devem abrir mão de sua identidade de gênero e serem ``femininas´´ do nada pra atrair os homens pra si... e os homens, mesmos os heteros, continuam a odiar vaginas.

Parece que o tempo da vida passou pra mim, que tudo o que eu tinha que viver eu já vivi, e que estou vivendo uma sobrevida que não cabe mais, que virou o fim nela mesma... e hoje a partir dos meus 23~24 anos não está mais reservado nada pra mim, a não ser o sofrimento e a carência eterna de um cônjuge que nunca vem. Hoje a minha existência não passa de uma reles resto do passado. Imaginem, uma vida chegar ao fim aos 23 anos, e deste então a pessoa virar uma ``cadáver´´ ambulante, só esperando o tempo passar logo e lembrando como era feliz até os 23 anos! É estar vivo por estar!

E pra essa árvore não há mais estações pra rodízios de 1 ano bom e 2 ruins, como acontecia antigamente: agora ficou finito e já são 4 anos na mesma coisa! 2012 nunca mais acabou, porque aquele homem foi o primeiro e o último a ter me dado uma chance, e com a sociedade brasileira mais neo-conservadora do que nunca, nenhum vai querer ser parceiro de ``uma´´ ``machuda´´ ``velha´´ de 27 anos!

E diferente do que já foi falado recentemente, nem o apelo à reprodução ao fato de, pra todos os efeitos, ter uma vagina, isso não faz uma vantagem, pois, além de até os homens heteros odiarem vaginas, eles só as toleram esposas pra fazer das mesmas troféus de status social. E Homens Trans não dão status social a ninguém.

Pior são as palavras esperançosas vazias profanadas da boca dos outros, que sempre prometem que um dia ``você vai conhecer o amor de sua vida´´, mesmo a pessoa tendo 27 anos, como se já não estivesse tarde o suficiente pra esse marido já ter chegado. O que está se esperando, que eu chegue aos 40? 50? 60? As pessoas sabem que a expectativa de vida de transexuais é de 35 anos? Não, não sabem!

Só são promessas!

Receio que até possa acontecer de eu conseguir um marido, mas muito tarde demais, perto dos 50, quando provavelmente já estarei uma pessoa tão seca que não fará diferença nenhuma, e não terei a felicidade de realizar esse sonho que eu teria hoje enquanto estou (ainda) relativamente mais novo. Ou seja, o sonho se realizará quando ele não for mais um sonho, só pra se dizer que ``ah, você realizou o seu sonho!´´. E que importância vai ter? Pura vingarice! Esperar sonhos tem limite, e uma sociedade como a brasileira não entende isso, achando que os sonhos podem se estender demais e para um futuro tão distante que chega perto da hora de morrer. E 50 anos é idade pré-terceira idade, quando aquela vontade toda de fazer sexo já terá ido todo embora! Passar a vontade de sexo pra depois ter um marido é uma avacalhação! Prefiro não passar por esse desejo reprimido!

Eu não tenho aonde fugir, e esperar é um verdadeiro inferno. Eu prefiro não esperar, que tudo acabe logo e que eu não sofra mais no meu túmulo, pois pessoas mortas não sofrem mais nada. Caso exista vida pós-morte, voltarei ao meu pai e ao meu considerado filho que perdi há mais de 1 ano. Afinal, esperar o que nunca virá é uma tortura que eu não mereço: desespero e angústia! Desespero pela certeza de sofrer no dia de amanhã. Angústia em voltar sozinho pra casa, dormir sozinho, necessitando de carinho e não tendo como ter.