Acabei de sonhar em que um homem que eu esperava de repente aparecia, descia as escadas e viesse ao meu encontro. Nesse sonho eu pude conversar com o homem que ele adorava, ele não se aborrecia; eu falava as coisas pra ele e ele gostava. Depois ele ia embora feliz por me encontrar, e eu mais feliz ainda, esperando o próximo encontro que seria maravilhoso.
No sonho é possível se aproximar dos homens sem que eles fujam, e muito fácio tudo dar certo. Mas na vida real, o homem ficaria irritado em me ver, tentaria terminar a conversa o mais breve possível e iria embora a passos largos, com raiva daquela "machuda" lhe "encher o saco". Como assim "encher o saco"? Pros homens, não importa como é a pessoa, mesmo que ela seja uma pessoa maravilhosa: se for um transexual feminino pro masculino (Homem Trans), ele já a corta da sua lista de convívio social, porque pessoas trans são consideradas "aberrações" sociais, indignas de convívio social, e quem estar junto com elas se torna igualmente "aberração".
No sonho os homens são mais receptivos, vêem as diferenças como o colorido do mundo e eu não preciso estar analisando o que eu vou dizer por dez vezes pra finalmente ter coragem de falar. E isso não é só coisa minha: qualquer pessoa sonha em ter uma vida social feliz. Mas só comigo os homens são incrivelmente hostis, se aborrecem com minha simples presença e por qualquer coisa que eu diga, e tratam minha transexualidade como uma doença de pele contagiosa. Parece que o simples fato de perceberem que sou transexual os fazem me odiar, da mesma forma que um racista odeia o negro só de ver que a pessoa é negra.
De que outra forma se explica o eterno desprezo dos homens, de eu estar próximo dos 30 anos sem nunca ter namorado? Não foi falta de gentileza, nem aparência física, pois meu sorriso é lindo e as lésbicas são loucas por mim. Só dos homens eu sinto esse ódio contra mim vindo do nada, sem motivo nenhum.
Eu fico imaginando qual a dificuldade de um homem ser receptivo. Não sei se é só os manauaras que são escrotos assim, ou se o homem brasileiro é normalmente assim, chato e desumano, e eu acabei criando a imagem de um marido que simplesmente não existe. E se sim, não foi só eu que criei uma imagem de homem brasileiro que não existe: novelas e filmes brasileiros também retratam homens que, na vida real aqui em Manaus, nunca existiram ou existiriam.
Nos sonhos parece tudo tão fácio conseguir encontrar e viver o amor de sua vida, mas quando chegamos à vida real, uma série de regras idiotas são impostas pra que se possa ter direito a um marido, como a de ser feminina (e bastante feminina) e se vestir de acordo com o sexo genital. Os homens também impõem para si mesmos regras inúteis, como a de ter status social de "macho-alfa", e deixar de lado o amor e a afetividade.
E daí pergunto qual é a necessidade disso tudo, pra quê regras inúteis que só impedem a afetividade de uns com os outros? Mas as pessoas não pensam, aceitam sem questionar porque "se é assim, logo deve ser assim". Ou os homens odeiam afetividade, sendo pessoas sem sentimento. Mas daí quem não tem sentimento é psicopata, e os homens ficam nervosos caso falemos isso.
Nos sonhos consigo viver o que a vida real não permite, daí é perigoso porque há a tentação de se refugiar nos sonhos, enquanto na vida real os problemas continuam e não serão solucionados do nada, e o tempo continua passando e eu envelhecendo sem amor. Mas como resolver, se os homens não querem? Parece que vivo numa prisão, e aonde eu olho e procuro, não há saída.
"Ele de repente vem, como quem muito esperou seu amado chegar e de repente ele consegue o que tanto deseja; e meu coração se encheu de vida, ao presenciar o sonho tornar-se realidade."








