sábado, 27 de fevereiro de 2016

Ainda não saímos de 2012. Muito menos de 2004 ou 1999.

4 anos depois de 2012, sofro mais uma rejeição amorosa, e sinto como estivesse de volta em 2012. E tem mais: a rejeição foi muito semelhante, quase idêntico, a uma que eu já passei mas que eu não tinha segundas intenções. A impressão é que eu vivo no passado, e esse passado nunca acaba.

Aliás, parece que a sociedade brasileira vive no passado, gosta e faz questão de viver no passado. A sociedade já mostra isso politicamente, quando vemos que a sociedade continua tão conservadora quanto há 25 anos atrás, que coisas como ameaça comunista, alienações dos anos 60 voltam a ser ressuscitados de 2013 à 2015. Imbecilidades desse tipo teimam em permanecer vivas, assim como a transfobia, a homofobia e o machismo.

Se em 1999 eu acreditava que era fácio demais um estupro acontecer à luz do dia, bastou hoje ter a liberdade de passear nas ruas à noite para que os homens que morrem de ódio de vagina se unissem na Internet pra fazer propaganda pela legalização do estupro, e até um deles tivesse coragem o suficiente pra gravar um vídeo ensinando homens a conseguirem estuprar.

Em 1999 eu já sabia que os homens odeiam quem tem vagina (mulheres cis e homens trans). De lá pra cá já se passaram 17 anos e os homens continuam a resmungar de um "mundo vaginante". Homens ditos heteros só se casam com as mulheres porque a regra social cobra, pra que tal homem prove ser "macho-alfa". E quando se casam, é só com mulheres femininas. Homens trans nem com nojo.

Curiosamente há a impressão de homossexuais afeminados a se assumir nas ruas manauaras aumentar. Tipo como se o narcisismo já estivesse tão alto ao ponto de fazer homossexuais afeminados se assumirem mais rápido, pra não terem que passar pela obrigação de se casar com uma odiada vagina pra terem que provar "masculinidade-alfa" ou "heterosexualidade".

O mesmo  bulliyng transfóbico que pessoas trans ouvem na rua hoje ("É homem ou é mulher?") já era ouvido nos anos 90, e também foram ouvidas de 2000 à 2010. O bulliyng homofóbico e transfóbico já existia nas escolas manauaras em 2000. Passou-se os anos e a homofobia e transfobia permaneceram. Mesmo quando decidi voltar a tentar completar os estudos, em 2010 ainda sofri transfobia. Em 2000 me tachavam de doida por não ter nenhum comportamento feminino. Em 2004 vieram as cobranças de feminidade pra poder namorar: passou-se 8 anos e em pleno 2012 um homem me joga na cara que nunca ficaria comigo por eu não ser feminina.

Daí tudo continua igual ao passado, incrivelmente intacto. A sociedade envelhece e os homens continuam iguais. Eu envelheço e vejo os homens de 2016 serem exatamente iguais aos de 2012, que eram exatamente iguais aos de 2007, que também eram exatamente iguais aos de 2004 e este também eram iguais aos de 1999! É como se vivêssemos em uma loop do tempo, aonde não só o tempo seria o mesmo, as pessoas também seriam as mesmas com o passar dos anos, e as gerações também iguais umas às outras. É como se os homens fossem pokémons que se recusam a evoluir, e meras cópias uns dos outros.

E parece que nenhum homem se cansa disso, ou que os que se cansam resolvem se assumir homossexuais e partem pra se assumirem também afeminados, gerando um inchaço de homossexuais afeminados que provavelmente irão querer homossexuais machões, e não irão ter. E no meio disso ninguém se assume bissexual nem transafetivo, pois o maniqueísmo continua sendo adorado pelos brasileiros.

O que acontece é que todas as vezes que há a chance da sociedade rever seus tabus, imediatamente acontece uma contra-partida e todos se retraem, preferindo manter tudo com está. É o que acontece quando o movimento LGBT e feminista (porque homofobia e transfobia são filhotes do machismo) parecem conseguir fazer a sociedade rever seus preconceitos, daí conservadores reagem e fazem a sociedade se retrair e continuar nas suas convicções passadas.

Quando gays estão próximos de terem seus direitos assegurados, procuram fazer a homofobia resistir com retóricas sem-pé-nem-cabeça como "gays querem privilégios"; agora com o crescimento do ativismo trans, unem munição contra, como dizerem que a cirurgia de mudança de sexo impede demais atendimentos médicos. Quando o feminismo parece estar conseguindo fazer as pessoas refletirem sobre o machismo, a televisão se enche de programas humorísticos cujo ``humor´´ é tentar transformar o ato do estupro numa coisa engraçada - como foi a entrevista de Alexandre Frota no Agora É Tarde, da Band - ou tentar comparar ato de doação de leite humano à pornografia - como foi no programa de nome inglês apresentado por Danilo Gentili, no SBT, - chegando ao ponto de até desmoralizar atos de caridade.

Da mesma forma, programas de humor, que disfarçam o bullying em verniz de humor, continuam a apresentar pessoas trans como se fossem aberrações dignas de risos. Hoje é o Homem Trans do Pé-Na-Cova, mas antes tinha um Homem Trans no Zorra Total, e já tinha piada contra Homens Trans em 1999 na Rede Globo. Deste lá a televisão trabalhou o seu público pra enxergar o Homem Trans como uma aberração digna de risos, e a sociedade repete essa afirmação no convívio social feito papagaios-de-pirata.

Daí fica inviável esperar que os homens de 2012 ou 2016 sejam diferentes dos de 1999 ou 2004, porque a propaganda anti-trans continua por gerações.

Em 2013 parecia uma oportunidade da sociedade brasileira amadurecer e progredir, mas a imprensa fez uma força-tarefa pra desmoralizar as manifestações (chamando de vandalismo até terrorismo, como se destruir vidros de bancos fosse semelhante a matar dezenas de vidas como faz o Estado Islâmico). E as cabeças da neo-direita fizeram centenas de analfabetos políticos de classe média acreditarem em ameaça comunista. Na televisão aumentou-se os piores programas de TV, incluindo os programas humorísticos sem graça, e todos resolveram voltar aos modismos de sempre.

Tudo é feito pra impedir que nunca saiamos de 2012, 2004 ou 1999. A própria sociedade tem medo de sair do passado, medo do diferente, pois o conservadorismo é um conhecido, já sabe como ele é, já vive com ele e portanto não tem medo, como uma pessoa se acostuma com uma situação ruim e passa a ter medo de sair dela. O brasileiro em si é um medroso, como diz no popular, "sangue de barata".

Enquanto a brincadeira continua, a previsão é que em 2018 continuará tudo perfeitamente igual, e chegarei ao absurdo de completar 30 anos sem nenhum parceiro, sem sequer ter tido um único namorado.