sexta-feira, 25 de março de 2016

Ouvi da boca de uma mulher o que jamais ouvi da boca de um homem.

Cresce a crença de que eu acabe "desenvolvendo" uma bissexualidade depois de tantos anos sendo desprezado e odiado pelos homens. Como sempre, mulheres não possuem aquela mente bagunçada dos homens, e há uns dias acabei ouvindo da boca de uma mulher aquilo que tanto ansiei ouvir da boca dos homens, mas jamais nenhum deles falou nada parecido.

Pelo contrário: homens falaram pra mim as piores coisas que eu queria ouvir, como "você não tem nenhuma chance comigo", "bichinha feia", "doida", "bruxa", "satanás", etc, etc, ... Já me falaram que "do tipo que você é nenhum homem vai te querer", como se eu fosse uma espécie de pessoa totalmente diferente dos demais, e diferente em contexto negativo. Como se eu fosse uma sobre-pessoa, uma mutação ou alienígena, e que ninguém seria capaz de compreender ou conviver junto.

Daí do nada aparece essa mulher, claramente interessada por mim, que chegou a dizer coisas tão maravilhosas que eu jamais vou esquecer, que chegaram ao anseio do meu "coração". Ela simplesmente disse, resumidamente, que o meu jeito é encantador.

Incrível como mulheres possuem uma capacidade que homens cis não tem, que é a capacidade de elogiar ou admitir que tal peculiaridade da tal pessoa a causa atração. Pros homens, parece que admitir isso causa neles diminuição, humilhação ou inferioridade na masculinidade, ou sabe-se lá que se passa na cabeça deles. Eu sinceramente não entendo isso, nunca me senti menos masculino em admitir gostar de alguém. Homens brasileiros tem problema sério...

Mulheres não tem necessidade de manter as aparências, não tem ânsia de provar "feminidade-alfa", nem se importam com status social. Mulheres não tem medo do diferente: aceitam relacionar-se com outras mulheres, com Homens Trans e até com Mulheres Trans! Mulheres não se importam com o que os outros vão achar - elas não são escravas da vontade dos outros!

Passei 16 anos procurando, desejando e até necessitando de um homem que se sentisse encantado com o meu jeito de ser. Nunca encontrei. Teve homem que disse que meu jeito de ser é estranho. Teve homem que fugiu com medo do meu jeito de ser. Teve homem que disse que meu jeito de ser pra sempre irá afastar as pessoas (a forma como eles falam parece tal qual jogar uma maldição!). Encontrei o que eu tanto procurava de uma outra fonte: uma mulher!

Sinceramente, eu não sei porque eu sou um Homem Trans gay! Eu não sei daonde que vem meu tesão por homens, se eles - ao menos os brasileiros - me odeiam, gostam mais de status social do que de afetividade, são covardes pra caramba (eu sempre achei que coragem é prova de masculinidade!), e vários inclusive estupram! Parece que eu criei na minha cabeça uma idéia de superioridade masculina que não existe. Corpo de homem pode ser a perfeição, mas a personalidade é uma merda, e não compensa o corpo. Talvez se eu não tivesse tanto nojo do meu corpo de mulher, eu seria um Homem Trans feliz, ao lado de uma mulher, e essa eu teria certeza que ela me ama/amaria! Me sinto confuso por estar procurando afetividade aonde não tem, e a encontrar aonde eu não queria encontrar.

Talvez meu destino seja passar por um processo, aonde minha própria orientação sexual vai "se mancar" ou se adaptar, e eu terminarei a idade-limite com uma cônjuge mulher. Já aconteceu muito na minha vida, de eu sonhar com uma coisa e quando eu chego lá descubro que o que eu sonhei não era aquilo que eu pensava que fosse, não é aquela "maravilha".

Queria dizer pra essa mulher que eu sou agradecido de coração pelas palavras que eu estava tanto necessitando. E que se possível for, ter a capacidade de buscar a felicidade aonde ela está. E ela parece não vir de um homem, e sim de uma mulher.

sábado, 19 de março de 2016

Surpresa não é jovens serem conservadores, e sim jovens serem progressistas!

Nesses últimos tempos as pessoas mais progressistas questionam até com certa admiração do porquê ultimamente há tantos jovens conservadores ou mesmo reacionários. A gente pensa que só pela pessoa ser mais jovem logo ela seria mais mente aberta e portanto mais disposta a entender o que é diferente. Mas eu já fui desmistificado dessa ilusão deste muito cedo, e sei bem o porquê e como essa tese não procede.

Vejam meu exemplo: sempre sofri bullying escolar pelos colegas da escola, tanto pelos da mesma sala de aula quanto das outras salas da escola – praticamente TODA a escola me odiava. As crianças e os jovens da(s) escola(s), tanto meninos quanto meninas, me consideravam uma pessoa louca só pelo fato de eu gostar de estudar e por eu não demonstrar nenhuma feminidade (referente à minha transexualidade). Sim, eram crianças e jovens manauaras, e suas mentes eram tão tacanhas e fechadas quanto as dos seus pais e mães, avôs e avós. Isso porque as futuras gerações tendem a ser as mesmas coisas que os seus antecessores. São raros aqueles que questionam os pais e têm coragem de seguirem pensamentos divergentes aos deles, como eu: o brasileiro é muito sangue-de-barata, e é necessário muita revolta (ou seja, a pessoa sofrer muito nas mãos dos mais velhos) pra o mesmo ousar a desafiar pensar diferente de seus pais e suas mães. É muito mais confortável pra qualquer criança ou jovem ser igual aos seus pais do que sofrerem golpes de cinto no lombo até urinarem!

E confessemos, a sociedade brasileira sempre foi fã do conservadorismo. Conservadorismo é uma zona de conforto, e as pessoas morrem de medo do diferente. Parece que pro o brasileiro descobrir o diferente é como descobrir a morte! E novamente é pelo fato do brasileiro ser podre de medroso. Parece que nossas veias são carregadas de medo!

Daí que eu não só aprendi que adultos são pessoas ariscas de se lidar, como crianças são piores ainda. Jovens então, nem se fala! Foi por causa disso que eu me dava melhor conversando com adultos do que com crianças e jovens. Na minha adolescência eu comecei a ganhar algum respeito dos adultos pelo fato de não ser mais uma criança, e tive bem mais amizades com adultos do que com jovens da minha idade, que eram tal qual o esteriótipo de retardados e porra-loucas que há na mente dos adultos.

Quando assumi minha transexualidade, os adultos eram os que mais me respeitavam, ou mesmo me compreendiam. Nesse tempo eu tentava completar os meus estudos no período noturno, e o bullying que sofri vinha somente dos jovens!

Essas experiências acabaram influenciando em minhas decisões e escolhas, e inclusive fazendo tomar decisões e escolhas que acabam erradas, como o mais curioso que aconteceu nas revoltas de Junho de 2016, quando tive que escolher entre dois grupos qual deveria me entrosar. Havia dois grupos de ideologias diferentes e eu não sabia qual era o mais progressista e qual era o mais conservador, e eu queria ir para o mais progressista. Um era de jovens e o outro era de adultos. Por causa da péssima experiência que tive de jovens, de experiência de que jovens seriam naturalmente conservadores, e com medo de aqueles jovens me achincalharem ao descobrirem que sou transexual, eu me uni ao grupo de adultos. Tempos depois me dei conta que fiz a escolha errada, que aqueles adultos eram classes médias conservadores, e só depois que migrei para o grupo dos jovens, estes sim mais progressistas!

Mas até hoje meu medo e aversão aos jovens persiste, e muitas vezes é reafirmada. Não existe nenhum rapaz da minha faixa etária que queira ser meu namorado, enquanto que encontro homens de 40 ou 60 anos que não negariam namorar comigo. Há pouquíssimos jovens progressistas em Manaus.

Por isso não me assusto nem um pouco com jovens reacionários como Kim Katagury (aquele moleque que faz careta-de-bunda e acha que tá arrasando com isso!) & Companhia. Aqui em Manaus então, é natural jovens serem reacionários! Mesmo que os jovens de hoje sejam de outra geração, pois como eu já expliquei em outra postagem deste mesmo blogue, a sociedade brasileira, ao menos a sociedade manauara, não muda com o passar dos anos. Os jovens desta geração provavelmente são os filhos daquelas crianças reacionárias que zombavam de mim na escola. E como os filhos tendem a serem iguais aos pais, daí não haveria de ser diferente!

O nosso grande problema é que a nossa sociedade tem horror em discutir ou revisar tabus. Se em 1999 as pessoas tinham horror de pessoas da família se revelando transexuais, em pleno 2016 isso ainda existe. Ninguém tem coragem pra entender o que é a transexualidade, preferem fugir do assunto como o Diabo foge da cruz. O medo é passado de geração a geração, como se o sanguismo-de-barata do brasileiro fosse uma coisa hereditária. Se isso nunca for quebrado, pode ter certeza que as próximas gerações de crianças e jovens continuarão sendo tão reacionárias e conservadoras quanto as de 1999!