Nesses últimos tempos as pessoas
mais progressistas questionam até com certa admiração do porquê ultimamente há
tantos jovens conservadores ou mesmo reacionários. A gente pensa que só pela pessoa ser mais jovem
logo ela seria mais mente aberta e portanto mais disposta a entender o que é diferente. Mas eu já fui desmistificado dessa ilusão
deste muito cedo, e sei bem o porquê e como essa tese não procede.
Vejam meu exemplo: sempre sofri bullying escolar pelos colegas da escola, tanto pelos da mesma sala de aula quanto das outras salas da escola – praticamente TODA a escola me odiava. As crianças e os jovens da(s) escola(s), tanto meninos quanto meninas, me consideravam uma pessoa louca só pelo fato de eu gostar de estudar e por eu não demonstrar nenhuma feminidade (referente à minha transexualidade). Sim, eram crianças e jovens manauaras, e suas mentes eram tão tacanhas e fechadas quanto as dos seus pais e mães, avôs e avós. Isso porque as futuras gerações tendem a ser as mesmas coisas que os seus antecessores. São raros aqueles que questionam os pais e têm coragem de seguirem pensamentos divergentes aos deles, como eu: o brasileiro é muito sangue-de-barata, e é necessário muita revolta (ou seja, a pessoa sofrer muito nas mãos dos mais velhos) pra o mesmo ousar a desafiar pensar diferente de seus pais e suas mães. É muito mais confortável pra qualquer criança ou jovem ser igual aos seus pais do que sofrerem golpes de cinto no lombo até urinarem!
E confessemos, a sociedade
brasileira sempre foi fã do conservadorismo. Conservadorismo é uma zona de conforto,
e as pessoas morrem de medo do diferente. Parece que pro o brasileiro descobrir
o diferente é como descobrir a morte! E novamente é pelo fato do brasileiro ser
podre de medroso. Parece que nossas veias são carregadas de medo!
Daí que eu não só aprendi que
adultos são pessoas ariscas de se lidar, como crianças são piores ainda. Jovens
então, nem se fala! Foi por causa disso que eu me dava melhor conversando com
adultos do que com crianças e jovens. Na minha adolescência eu comecei a ganhar
algum respeito dos adultos pelo fato de não ser mais uma criança, e tive bem
mais amizades com adultos do que com jovens da minha idade, que eram tal qual o
esteriótipo de retardados e porra-loucas que há na mente dos adultos.
Quando assumi minha
transexualidade, os adultos eram os que mais me respeitavam, ou mesmo me
compreendiam. Nesse tempo eu tentava completar os meus estudos no período
noturno, e o bullying que sofri vinha somente dos jovens!
Essas experiências acabaram influenciando
em minhas decisões e escolhas, e inclusive fazendo tomar decisões e escolhas
que acabam erradas, como o mais curioso que aconteceu nas revoltas de Junho de
2016, quando tive que escolher entre dois grupos qual deveria me entrosar. Havia
dois grupos de ideologias diferentes e eu não sabia qual era o mais
progressista e qual era o mais conservador, e eu queria ir para o mais
progressista. Um era de jovens e o outro era de adultos. Por causa da péssima
experiência que tive de jovens, de experiência de que jovens seriam
naturalmente conservadores, e com medo de aqueles jovens me achincalharem ao
descobrirem que sou transexual, eu me uni ao grupo de adultos. Tempos depois me
dei conta que fiz a escolha errada, que aqueles adultos eram classes médias
conservadores, e só depois que migrei para o grupo dos jovens, estes sim mais
progressistas!
Mas até hoje meu medo e aversão
aos jovens persiste, e muitas vezes é reafirmada. Não existe nenhum rapaz da
minha faixa etária que queira ser meu namorado, enquanto que encontro homens de
40 ou 60 anos que não negariam namorar comigo. Há pouquíssimos jovens
progressistas em Manaus.
Por isso não me assusto nem um
pouco com jovens reacionários como Kim Katagury (aquele moleque que faz careta-de-bunda e acha que tá arrasando com isso!) & Companhia. Aqui em Manaus
então, é natural jovens serem reacionários! Mesmo que os jovens de hoje sejam
de outra geração, pois como eu já expliquei em outra postagem deste mesmo
blogue, a sociedade brasileira, ao menos a sociedade manauara, não muda com o
passar dos anos. Os jovens desta geração provavelmente são os filhos daquelas
crianças reacionárias que zombavam de mim na escola. E como os filhos tendem a
serem iguais aos pais, daí não haveria de ser diferente!
O nosso grande problema é que a nossa sociedade
tem horror em discutir ou revisar tabus. Se em 1999 as pessoas tinham horror de
pessoas da família se revelando transexuais, em pleno 2016 isso ainda existe.
Ninguém tem coragem pra entender o que é a transexualidade, preferem fugir do
assunto como o Diabo foge da cruz. O medo é passado de geração a geração, como
se o sanguismo-de-barata do
brasileiro fosse uma coisa hereditária. Se isso nunca for quebrado, pode ter
certeza que as próximas gerações de crianças e jovens continuarão sendo tão
reacionárias e conservadoras quanto as de 1999!
