sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Troco minha vida amorosa pelo ativismo político.

Confesso: ando trocando a minha vida pessoal pela minha vida de ativista político. O tempo todo eu penso no meio político. Até mesmo quando não estou ocupado em nenhuma atividade em política amazonense ou trans, estou pensando sobre o ativismo, no que vou fazer, planejando coisas e em retomar as postagens dos meus blogues. Eu mesmo considero como diversão atual leitura de blogues e facebooks progressistas. Vez e outra que eu lembro da minha vida particular e o quanto estou perdendo tempo, envelhecendo e sem nenhuma perspectiva de conseguir o sonhado marido.
Eu sei que isso é minha reação semi-consciente da situação da minha vida. Deste a minha maior frustração amorosa que sofri, em 2012, que passei a fugir pra política por frustração da minha própria vida particular. Ela em si se tornou um inferno, insuportável, um plano que não deu certo e faleceu pra sempre. Daí que rompi com a forma de vida que levava antes 2012, pois vivê-la é o mesmo que continuar vivenciando a catástrofe amorosa daquele ano, é lembrar que antes eu era um virgem feliz e que daquele momento em diante perdi tudo, até meus sonhos. Daí tenho no ativismo político uma ``nova vida´´, sem as chances de me frustrar ou de sofrer ao ponto de desejar morrer. Aliás, o próprio ativismo é um risco à vida, e como não tenho nada a perder, não tenho medo de morrer: se a morte vier, ela será um alívio e não um castigo!
É interessante ver aqui como em uma parte, eu me lanço no ativismo justamente pra apostar, brincar com a morte: se minha vida é uma merda, nada mais esperto, e até vingativo, do que pôr-la em aposta! Se eu morrer, alívio dos meus problemas! Se eu viver, mais uma chance de mudar o mundo (o Brasil pelo menos... o Amazonas no mínimo)!
O ativismo também me permite decidir o meu próprio destino, coisa que a vida particular amorosa não permite. No ativismo eu posso fazer política, colocar minhas ideias, fechar ruas, desafiar gigantes. No ativismo eu posso convencer as pessoas às minhas ideias progressistas através da boa dialética. Enquanto que na vida particular amorosa eu sou incapaz e impossibilitado de convencer um homem a namorar comigo!
É interessante eu mesmo ver que eu cresço assustadoramente rápido no campo político [e sem me corromper em nadinha e sem pisar em ninguém!  :-)  ], enquanto que no campo amoroso sou um completo desastre. Sou capaz de usar palavras fáceis pra fazer o público entender como funciona a alienação e a transfobia, mas sou incapaz de fazer um homem se apaixonar por mim. Tenho mais coragem de falar em público do que tentar conversar com um homem lindo encontrado no meio da rua ou em uma ocasião. Isso porque se eu me falhar no ativismo, eu posso me corrigir e me aperfeiçoar mais tarde, enquanto que no meio amoroso, se eu falhar e o homem me desprezar, entrarei em depressão profunda e ficarei arrependido pelo resto da vida.
Além disso, já estou progredindo muito no meio ativista. Já no meio amoroso foram 12 anos de tentativa e nenhum progresso. O único progresso foi perder a virtude, e por um alto preço, o que fez o sonho de perdê-la virar um pesadelo, até hoje! No ativismo, bastou meio ano pra ter um progresso enorme! De muito esforço sim, mas os esforços tiveram frutos, isso que é importante. Enquanto que no campo amoroso, tudo que você colher vira cinzas com um simples ``não´´ de um homem!
Daí que eu acabo perdendo a noção do tempo e, quando percebo, vejo que escolhi gastar meu tempo com o ativismo invés de procurar conversar com um homem em que eu hipoteticamente teria chance de ter alguma coisa. Mesmo sofrendo toda a vez que volto pra casa sozinho dentro de um ônibus saculejante, mesmo morrendo de vontade de transar com um baita macho. Estou sim sabotando a mim mesmo. Mas fazer o quê? São os homens que me odeiam, que me desprezam à solidão, que negam assumir relacionamento sério com um Homem Trans gay. Eles quem escolhem colocar o status social de ``macho-alfa´´ acima da afetividade. Eles quem jogam na cara que por eu não ser feminina eu não sirvo pra casar!
E se eles me trocam por merda de status social, porque eu não posso trocá-los também? E por uma coisa melhor, que é o ativismo político, pra mudar melhor uma sociedade?
Eu não sei por quanto tempo essa amargura, ou auto-defesa, vai durar. Se daqui a alguns anos, quando alcançar minha idade-limite de 30 anos, a abstinência amorosa e sexual vai falar mais alto e eu vou ter coragem de tentar de novo, e provavelmente ser desprezado mais uma vez e me arrepender amargamente... As coisas funcionam assim, continuam funcionando assim, e eu apenas sou uma ovelha perdida sendo empurrada pro matadouro. A sociedade continua misógina e transfóbica igual a 20 anos atrás, e ao que tudo indica, com esse neo-conservadorismo que vive o país, é que continue assim e chegue assim em 2018.