Confesso: ando trocando a minha vida pessoal pela minha vida
de ativista político. O tempo todo eu penso no meio político. Até mesmo quando
não estou ocupado em nenhuma atividade em política amazonense ou trans, estou
pensando sobre o ativismo, no que vou fazer, planejando coisas e em retomar as
postagens dos meus blogues. Eu mesmo considero como diversão atual leitura de
blogues e facebooks progressistas.
Vez e outra que eu lembro da minha vida particular e o quanto estou perdendo tempo,
envelhecendo e sem nenhuma perspectiva de conseguir o sonhado marido.
Eu sei que isso é minha reação semi-consciente da situação
da minha vida. Deste a minha maior frustração amorosa que sofri, em 2012, que
passei a fugir pra política por frustração da minha própria vida particular.
Ela em si se tornou um inferno, insuportável, um plano que não deu certo e
faleceu pra sempre. Daí que rompi com a forma de vida que levava antes 2012,
pois vivê-la é o mesmo que continuar vivenciando a catástrofe amorosa daquele
ano, é lembrar que antes eu era um virgem feliz e que daquele momento em diante
perdi tudo, até meus sonhos. Daí tenho no ativismo político uma ``nova vida´´,
sem as chances de me frustrar ou de sofrer ao ponto de desejar morrer. Aliás, o
próprio ativismo é um risco à vida, e como não tenho nada a perder, não tenho
medo de morrer: se a morte vier, ela será um alívio e não um castigo!
É interessante ver aqui como em uma parte, eu me lanço no
ativismo justamente pra apostar, brincar com a morte: se minha vida é uma
merda, nada mais esperto, e até vingativo, do que pôr-la em aposta! Se eu
morrer, alívio dos meus problemas! Se eu viver, mais uma chance de mudar o
mundo (o Brasil pelo menos... o Amazonas no mínimo)!
O ativismo também me permite decidir o meu próprio destino,
coisa que a vida particular amorosa não permite. No ativismo eu posso fazer política,
colocar minhas ideias, fechar ruas, desafiar gigantes. No ativismo eu posso
convencer as pessoas às minhas ideias progressistas através da boa dialética.
Enquanto que na vida particular amorosa eu sou incapaz e impossibilitado de convencer
um homem a namorar comigo!
É interessante eu mesmo ver que eu cresço assustadoramente
rápido no campo político [e sem me corromper em nadinha e sem pisar em ninguém! :-) ],
enquanto que no campo amoroso sou um completo desastre. Sou capaz de usar
palavras fáceis pra fazer o público entender como funciona a alienação e a
transfobia, mas sou incapaz de fazer um homem se apaixonar por mim. Tenho mais
coragem de falar em público do que tentar conversar com um homem lindo
encontrado no meio da rua ou em uma ocasião. Isso porque se eu me falhar no
ativismo, eu posso me corrigir e me aperfeiçoar mais tarde, enquanto que no meio
amoroso, se eu falhar e o homem me desprezar, entrarei em depressão profunda e
ficarei arrependido pelo resto da vida.
Além disso, já estou progredindo muito no meio ativista. Já
no meio amoroso foram 12 anos de tentativa e nenhum progresso. O único
progresso foi perder a virtude, e por um alto preço, o que fez o sonho de
perdê-la virar um pesadelo, até hoje! No ativismo, bastou meio ano pra ter um
progresso enorme! De muito esforço sim, mas os esforços tiveram frutos, isso
que é importante. Enquanto que no campo amoroso, tudo que você colher vira
cinzas com um simples ``não´´ de um homem!
Daí que eu acabo perdendo a noção do tempo e, quando percebo,
vejo que escolhi gastar meu tempo com o ativismo invés de procurar conversar
com um homem em que eu hipoteticamente teria chance de ter alguma coisa. Mesmo
sofrendo toda a vez que volto pra casa sozinho dentro de um ônibus saculejante,
mesmo morrendo de vontade de transar com um baita macho. Estou sim sabotando a
mim mesmo. Mas fazer o quê? São os homens que me odeiam, que me desprezam à
solidão, que negam assumir relacionamento sério com um Homem Trans gay. Eles
quem escolhem colocar o status social de ``macho-alfa´´ acima da afetividade. Eles
quem jogam na cara que por eu não ser feminina eu não sirvo pra casar!
E se eles me trocam por merda de status social, porque eu
não posso trocá-los também? E por uma coisa melhor, que é o ativismo político,
pra mudar melhor uma sociedade?
Eu não sei por quanto tempo essa amargura, ou
auto-defesa, vai durar. Se daqui a alguns anos, quando alcançar minha idade-limite
de 30 anos, a abstinência amorosa e sexual vai falar mais alto e eu vou ter
coragem de tentar de novo, e provavelmente ser desprezado mais uma vez e me
arrepender amargamente... As coisas funcionam assim, continuam funcionando
assim, e eu apenas sou uma ovelha perdida sendo empurrada pro matadouro. A
sociedade continua misógina e transfóbica igual a 20 anos atrás, e ao que tudo
indica, com esse neo-conservadorismo que vive o país, é que continue assim e
chegue assim em 2018.