Como ser mais corajoso em tentar conseguir um cônjuge, se o
passado me ensinou que os homens me odeiam? A cada dia o desgaste de estar
envelhecendo, estar perto de completar 30 anos e não ter tido sequer um namorado
durante a vida, mas o medo continua sendo maior ainda. Medo de mais uma vez
ouvir um ``não´´, da pior forma, de se envolver sentimentalmente com alguém e
depois ter que cortar a relação na força. É mais do que isso: é medo até de
ouvir o que mais teme, de que você seria uma aberração visual, sem nenhum
atrativo sexual e indigno de ser amorosamente e sexualmente feliz.
É a própria sociedade que diz isso, e os próprios homens.
Deste a pré-adolescência, como Homem Trans (e gay) que sou, fui estigmatizado
como uma coisa feia. Colegas de escola e principalmente da mesma sala de aula,
percebendo que eu não exalava nenhum pingo de feminidade, tratavam de me
estigmatizar de ``feia´´. Não que meu rosto fosse horroroso (pelo contrário:
meu sorriso é lindo), e sim que minha própria condição de transexual foi tida
como feiura! Ainda mais numa sociedade podre de machista como o Brasil, há a
exigência, beirando à ditadura, de que toda pessoa biologicamente mulher use
maquiagem, tenha trejeitos femininos, voz doce, e mais. E quem não atendesse à
essas exigências, além de ser automaticamente lido como pessoa feia, é
desprezado socialmente.
Com todos me estigmatizando como uma pessoa feia, logo os
homens, o gênero mais Maria-vai-com-as-outras e que mais se importa com a
opinião da sociedade, também achariam o mesmo. Além disso, o homem brasileiro
possui uma séria dependência em relação ao status social: parece que os homens
morrem se não terem status social de ``macho-alfa´´!
Daí graças a isso que eu passei pelo meu maior medo, que foi
gostar de um homem e ser desprezado por ele, porque as outras pessoas já haviam
me estigmatizado como pessoa louca e como pessoa feia. O homem que eu gostei
também me viu como louca e feia. Foi o fim!
Daí como depois se declarar para um homem novamente, como
depois tentar de novo? Pra sofrer desprezo e aversão de novo? Não é só questão
de trauma, pois a sociedade brasileira, sobretudo a sociedade manauara, vive
parada no tempo, aonde as pessoas não mudam, e são exatamente iguais umas às
outras. A mentalidade dos homens de 1999 à 2003 é a mesma de 2012, que é a mesma de
atualmente, 2016.
Por isso que, em 2012, passei pela pior frustração amorosa,
ao ponto de ter tido relações com um outro homem, mas depois ele me despreza,
alegando que eu não serviria pra casar porque não sou feminina. Ou seja,
repetiu a mesma coisa que os fedelhos de 1999 já diziam, que eu não me fazia
digno por não ser feminina!
Daí o medo astronômico de tentar de novo, pior ainda em
pensar em me declarar pra um homem. Cada desprezo é um prego no caixão, uma
punhalada no coração. E o trauma é carregado pelo resto da vida. O medo é pior
ainda se o homem for lindo demais. Daí tenho a sensação de que eu seria indigno
de conseguir tal homem, pois ele seria ``areia demais´´ pro meu ``caminhãozinho´´.
Daí o medo me congela, e eu acabo não indo atrás
do meu sonho de me casar, e acabo envelhecendo solteiro eternamente. E tudo por
causa de uma sociedade transfóbica até o tutano dos ossos, que não suporta a
idéia que pessoas trans tenham o direito à afetividade e à relação conjugal.
Pra essa sociedade, pessoas trans nem seriam gente!
