sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Histórico de desprezo dificulta conseguir um cônjuge hoje.

Como ser mais corajoso em tentar conseguir um cônjuge, se o passado me ensinou que os homens me odeiam? A cada dia o desgaste de estar envelhecendo, estar perto de completar 30 anos e não ter tido sequer um namorado durante a vida, mas o medo continua sendo maior ainda. Medo de mais uma vez ouvir um ``não´´, da pior forma, de se envolver sentimentalmente com alguém e depois ter que cortar a relação na força. É mais do que isso: é medo até de ouvir o que mais teme, de que você seria uma aberração visual, sem nenhum atrativo sexual e indigno de ser amorosamente e sexualmente feliz.

É a própria sociedade que diz isso, e os próprios homens. Deste a pré-adolescência, como Homem Trans (e gay) que sou, fui estigmatizado como uma coisa feia. Colegas de escola e principalmente da mesma sala de aula, percebendo que eu não exalava nenhum pingo de feminidade, tratavam de me estigmatizar de ``feia´´. Não que meu rosto fosse horroroso (pelo contrário: meu sorriso é lindo), e sim que minha própria condição de transexual foi tida como feiura! Ainda mais numa sociedade podre de machista como o Brasil, há a exigência, beirando à ditadura, de que toda pessoa biologicamente mulher use maquiagem, tenha trejeitos femininos, voz doce, e mais. E quem não atendesse à essas exigências, além de ser automaticamente lido como pessoa feia, é desprezado socialmente.

Com todos me estigmatizando como uma pessoa feia, logo os homens, o gênero mais Maria-vai-com-as-outras e que mais se importa com a opinião da sociedade, também achariam o mesmo. Além disso, o homem brasileiro possui uma séria dependência em relação ao status social: parece que os homens morrem se não terem status social de ``macho-alfa´´!

Daí graças a isso que eu passei pelo meu maior medo, que foi gostar de um homem e ser desprezado por ele, porque as outras pessoas já haviam me estigmatizado como pessoa louca e como pessoa feia. O homem que eu gostei também me viu como louca e feia. Foi o fim!

Daí como depois se declarar para um homem novamente, como depois tentar de novo? Pra sofrer desprezo e aversão de novo? Não é só questão de trauma, pois a sociedade brasileira, sobretudo a sociedade manauara, vive parada no tempo, aonde as pessoas não mudam, e são exatamente iguais umas às outras. A mentalidade dos homens de 1999 à 2003 é a mesma de 2012, que é a mesma de atualmente, 2016.

Por isso que, em 2012, passei pela pior frustração amorosa, ao ponto de ter tido relações com um outro homem, mas depois ele me despreza, alegando que eu não serviria pra casar porque não sou feminina. Ou seja, repetiu a mesma coisa que os fedelhos de 1999 já diziam, que eu não me fazia digno por não ser feminina!

Daí o medo astronômico de tentar de novo, pior ainda em pensar em me declarar pra um homem. Cada desprezo é um prego no caixão, uma punhalada no coração. E o trauma é carregado pelo resto da vida. O medo é pior ainda se o homem for lindo demais. Daí tenho a sensação de que eu seria indigno de conseguir tal homem, pois ele seria ``areia demais´´ pro meu ``caminhãozinho´´.

Daí o medo me congela, e eu acabo não indo atrás do meu sonho de me casar, e acabo envelhecendo solteiro eternamente. E tudo por causa de uma sociedade transfóbica até o tutano dos ossos, que não suporta a idéia que pessoas trans tenham o direito à afetividade e à relação conjugal. Pra essa sociedade, pessoas trans nem seriam gente!