O assunto ainda é periclitante. Não importa se o assunto está meio atrasado. É preciso falar sobre isso!
Houve o estupro coletivo de trinta homens contra uma mulher menor de idade. Não foram três, nem dez, foram TRINTA! Trinta estupradores! Trinta homens estupradores!
Uma quantidade de estupradores alta e concentrada, alguma coisa está, e muito, estranha e errada! A reação (minha) foi choque psicológico... e choque de realidade, com álgum que, confesso eu, acreditava ser álgum superado, que é a teoria do homem estuprador em potencial.
Em 1999, quando descobri a existência do estupro (descobri que estupro existia, mas até hoje nunca fui estuprado), uma fobia de homem nasceu, e minha atração sexual por homens foi prejudicada. Passei anos da minha vida vivendo como uma pessoa assexual. Não saia de casa com medo de um homem me atacar. Mesmo apaixonado por alguém e desejando sexo, o medo do homem se transformar na cama e fazer o que não quero era maior.
Com o passar dos anos, eu imaginava que, principalmente, a essa altura do campeonato / ano de 2016, que o estupro já estaria suficientemente com força política baixa, que não seria mais possível um estupro coletivo, muito menos seria possível a reunião de trinta marmanjos pra estuprar uma única mulher, que caso acontecesse haveria uma revolta social de proporções gigantescas.
Mas a realidade bateu na porta.
Eu mesmo tentei rever a teoria do homem estuprador em potencial, mas ao mesmo tempo eu sabia que o tempo pode ter passado, mas os homens brasileiros não mudaram nada, continuam exatamente iguais de quando eu descobri a existência do estupro.
Mas não falo só do estupro coletivo.
Uma coisa é tanta quantidade de machos estupradores dispostos a estuprar. Outra é a sociedade masculina justificar e até apoiar o estupro!
Ou atacar o combate o estupro, que é o feminismo.
Se esperaria de a sociedade brasileira dita menos medieval condenasse o estupro, que todo mundo condenasse a cultura do estupro...
Mas o que aconteceu foi principalmente no Facebook, rede social que virou nicho do direitismo, homens condenando e denegrindo o feminismo, homens condenando textos criticando cultura do estupro.
Homens que ficaram com raiva de avatar contra cultura do estupro, em vez de ficarem com raiva dos trinta estupradores!
Homens que não queriam que se fizesse textão denunciando cultura do estupro, mas acharam tudo bem publicar textão contra feminismo.
Ou seja, os homens não estavam nem aí pro estupro coletivo, eles estavam mais preocupados em tirar o cu de reta, eles estavam mais preocupados com o debate sobre a cultura do estupro que estava prestes a acontecer. A impressão era (é) que eles não queriam (e não querem) que a cultura do estupro seja debatida; que eles queriam (e querem) que a cultura do estupro nunca desapareça!
Pior foi presenciar homens justificando do estupro! E não era só um e outro. A sensação foi/é de quase uma unanimidade dentre os homens! Uma sensação de terror ao ver os piores medos de 1999 se concretizarem em pleno 2016, de homens justificando estupro porque a vítima não estava em casa lavando a louça - que quem tiver vaginas que se isole dentro de casa! Porque a vítima mesmo menor de idade já teria tido filho - que quem tiver vagina não pode fazer sexo cedo. Ou porque a vítima teria praticado orgia - que quem tiver vagina teria a obrigação de aceitar (tudo) que o(s) parceiro(s) imporem na hora do sexo!
Notem que nesses contextos os homens colocaram como se o estupro sofrido fosse uma punição naturalmente vinda, e punição por dois motivos absurdos, como se fosse proibido ou mal ter filhos cedos ou fazer orgia. Daí depois teve homem que inventou motivos piores - inventaram que a mulher não levava o filho à escola - pra tentar fazer colar melhor, pra tentar fazer mais aceitável a idéia de um estupro como palmada corretiva pra educar mulheres - só mulheres! Na cabeça dos homens brasileiros, àlgum tão cruel como humilhação sexual é educativo, e quando se cria pretextos pra ele, ele deixa de ser abominável pra virar aceitável! E detalhe: não há essa mesma idéia de estupro corretivo pra homens!
Diante de tudo isso me senti de volta em 1999, quando eu pensava que eu tinha que me salvar dos homens me isolando em casa, me abster sexualmente e deixar de viver uma vida plena que homens vivem. Só que diferente de antigamente, agora os homens, por meio de redes sociais, é quem afirmam isso, praticamente confessam que são mesmo uma ameaça e que quem tiver vagina que se afastem deles pra se salvarem, pois caso sofram estupro, eles não vão admitir que o problema é com eles, nem que eles é quem não devem estuprar! Parece que os homens gostam de serem temidos. Mas ao mesmo tempo, não gostam de ouvir isso. Tipo ``sou mau sim mas não diga isso na minha cara´´?
A impressão que dá é que esses homens fazem isso porque no fundo queriam estar junto aos trinta estupradores. Lá no fundo, eles também queriam estuprar, só não têm coragem. E agora que o estupro coletivo aconteceu, os homens brasileiros ficaram entusiasmados com a possibilidade de poderem estuprar em coletivo sem isso causar uma grande revolta social, pois pra isso bastaria uma enxurrada de comentários no Facebook. E depois choram lágrimas de crocodilo se chamados de estupradores em potencial.
Daí depois esses mesmos homens não querem ouvir que eles são todos iguais, que são estupradores em potencial, que são psicopatas, etc. São machistas, misóginos e psicopatas, e pra eles tudo bem serem machistas e misóginos, e até mesmo psicopatas, só não querem ser criticados por isso. Pelo contrário, querem ser amados por isso! A impressão que dá é que eles querem que as pessoas com vagina gostem de serem odiadas e sacaneadas por eles. Sinto muito, masoquismo não é unanimidade!
Daí perante tudo isso, como eu, um homem trans, vai conseguir encontrar um marido? Eu que sou homem trans, tenho vagina, tenho medo de estupro. Como vou conseguir até mesmo me apaixonar depois de presenciar homens que odeiam vaginas, odeiam feminismo, justificam estupro, botam culpa na vítima, que no final das contas cagam e andam pelas vítimas, dando a impressão que no fundo queriam também estuprar coletivamente? Como ir pra cama com alguém que acha que pode fazer o que quiser entre quatro paredes e que se eu fui é porque assumi o risco?
Agora me sinto de volta em 1999, quando descobri a existência do estupro e passei a temer todos os homens. Agora todo aquele medo voltou, e minha atração sexual por homens indo ladeira abaixo, risco de viver como um assexual pela segunda vez na minha vida. Tudo porque os homens brasileiros insistem em manter-se parados no tempo e serem os mesmos de 1999 em pleno 2016!
