terça-feira, 5 de abril de 2016

Briga entre torcidas de futebol são fruto da intolerância da sociedade brasileira.

Chamou minha atenção a notícia de medidas tomada por autoridades do estado de São Paulo (São Paulo como sempre é o estado mais vergonhoso do Brasil. As pessoas de lá são piores do que os manauaras.) pra tentar impedir briga entre torcidas de futebol paulistanas, e em como o debate sobre o assunto ainda está tão longe da raiz do problema, pois a televisão, desonesta, não expõe a verdadeira raiz do problema, que é a incapacidade do brasileiro de tolerar o diferente.

O problema se reproduz no campo do futebol, como já se reproduz no campo LGBT, mulher, negro e demais categorias. O brasileiro é uma pessoa que odeia o diferente, acha que diferença é um defeito e que todas as pessoas tem que serem iguais e pensarem iguais umas às outras. Existe esse confronto entre torcedores porque a sociedade brasileira tem uma cultura interna de ver o diferente, a opinião contrária ou gosto contrário como um inimigo que tem que ser aniquilado.

As autoridades (ou seriam otoridades?) ao tomarem tais medidas como perdidos sem saberem o que fazer, nota-se não um ``reconhecimento da incompetência de combater a violência e garantir segurança´´, e sim o reconhecimento de uma incapacidade de perceber o óbvio, que é a incompetência do combate à discriminação. E proibir torcidas adversárias num mesmo estádio, além de incompetência, é admitir e até consentir que a nossa sociedade é incapaz do brasileiro de tolerar o diferente; uma vergonha de deixar qualquer sociedade mais civilizada creda que somos um bando de selvagens irracionais.

E incapacidade do brasileiro de tolerar o diferente não se resolve (somente) com punições rigorosas. O crime de intolerância não está ligado à uma ``mente criminosa´´, e sim a uma alienação. Um dos motivos que não se aprova a lei criminalizando a homofobia é o fato do brasileiro ainda acreditar que LGBTs são ameaça e que devem ser combatidos. Quando essa idéia cair por terra, a própria sociedade vai frear qualquer tentativa de homofobia. Ora, os torcedores fanáticos ainda acreditam que é dever cívico rebaixar, humilhar, agredir, bater, espancar ou mesmo matar o torcedor adversário! O torcedor fanático quebra vidros do metrô acreditando estar sendo um herói defendendo o time! Se for preso, então, vai se sentir um mártir! Punições rigorosas ou essas medidas não mudarão a forma de pensar dele, ele apenas as verá como um desafio a mais a ser vencido no seu ``dever´´ de aniquilar o torcedor adversário.

Não adianta você acreditar no ignorante do Datena dizendo que ``não são torcidas e sim facção´´, pois Mancha Verde e Gaviões da Fiel não são como os personagens da facção da novela das 9 da Rede Globo. São sim torcedores. São torcedores fanáticos. O G1 fala de 50 (Cinquenta!) torcedores presos! Ou seja, 50 pessoas cometendo crime ao mesmo tempo? É anormal, beira o surreal. Torcendo que isso seja mais um daqueles exageros de imprensa, mas caso for verdade, é um dado de demonstra sintoma de histeria coletiva. E histerias coletivas não se combatem com medidas nem leis duras, e sim no combate à alienação que está levando 50 pessoas a transformarem a rua em ringue e acharem que estão arrasando com isso.

Não adianta o ignorante do Datena perguntando porque não se acaba com a torcida organizada, porque o motivo é bem simples: não se pode impedir as pessoas de se organizarem! Torcida organizada não é um órgão ou entidade, e sim pessoas que se organizam através de vários meios, vai de internet até uma reunião em um ponto de encontro marcado até. E pessoas se organizam tanto pro mal quanto pro bem. (Sinceramente, o Datena tem uma capacidade incrível de emburrecer as pessoas!)

A medida mais ignorante e também a mais absurda é a de torcida única no estádio, ou seja, apenas um dos times entra e assiste a partida. Primeiro que é institucionalizar um apartheid com os torcedores: Se odeiam? Vamos manter separados! Acabar com o ódio entre eles? Não, vamos manter separados! Vão fazer o mesmo que faziam com os negros: separá-los dos brancos! E o mesmo filme que a gente vê em outros casos:

Acabar com o racismo? Não, vamos separar os negros dos brancos!
Acabar com a homofobia? Não, vamos separar os homos dos heteros!
Acabar com o machismo? Não, vamos separar as mulheres dos homens!
Acabar com a transfobia? Não, vamos separar o(a)s trans do(a)s cis, deixando as pessoas trans sofrerem bullying até desistirem dos estudos!

Incrível como a primeira coisa que essa medida me fez lembrar foi a atual rivalidade entre direitistas e governistas, aonde semana retrasada as autoridades pediram pra que direitistas não façam manifestação no mesmo dia e menos ainda no mesmo local das manifestações governistas, pois a rivalidade e o maniqueísmo político está num ponto de ebulição tão grande que direitistas estão com vontade de tirar sangue dos governistas (e também há governistas querendo fazer o mesmo com os direitistas). E isso que acontece no meio político também é reflexo dessa gana do brasileiro de viver em sociedade baseado no ``nós contra eles´´.

Segundo, que isso só impede confronto no estádio: não adianta nada impedir confronto no estádio se eles podem se confrontar fora dele, nas ruas. simplesmente continuaram a se enfrentarem nas ruas e os banhos de sangue vão continuar!

Sobre as demais medidas

Proibição de organizadas com identificação - não vai adiantar, pois a torcida organizada vai criar outras formas de se identificarem, inclusive um código só entre eles, e isso vai ser pior pra polícia conseguir identificar quando os grupos rivais estarão se aproximando um do outro e prestes a entrarem em confronto.

Ingresso apenas pela internet - trata-se de um cadastro de torcedores, pois pra comprar o ingresso vai ser necessário digitar o CPF, ou seja, praticamente as pessoas vai ser pré-fichadas pela polícia por estar comprando o ingresso! Olha que bacana! E quem não for assistir ao jogo, e sim ficar do lado de fora esperando a torcida rival sair, como vai ser fichada? Como os caras não pensaram nisso?

Todas essas medidas serão em vão. São medidas do tipo tirar sofá da sala: elas não vão combater a idéia que está na cabeça do torcedor fanático de ver o torcedor contrário como um inimigo a ser aniquilado. De levarem o futebol e o time de futebol como a coisa mais importante do mundo; mais importante até do que a vida das outras pessoas. Mas o quê se esperar de um país aonde TV fala que vidro de banco é mais importante do que vidas, e pessoas consentem sem questionar?

Aliás, é esse mesmo o problema: falta de amor ao próximo. A partir do momento em que o brasileiro passou a odiar as pessoas porque elas possuem diferenças, e a transferir afetividade em um jogo supérfluo, os problemas começaram. Chegamos ao ponto de o homem hetero brasileiro gostar mais de futebol do que de uma mulher. O homem hetero brasileiro hoje achar mais ``da hora´´ assassinar um torcedor adversário do que transar com uma mulher!

Nem a televisão nem as autoridades estão dispostas a enfrentar a origem do torcedor fanático pois isso vai mexer com o tradicionalismo da sociedade brasileira, e aqui tradição é igual à divindade. A televisão de novo vai repetir (a tática de enfiar idéias na cabeça das pessoas: repetir, repetir, repetir...) como solução aprovar leis mais severas (Eduardo Cunha?) e as datenetes vão repetir feito papagaios-de-pirata, e os banhos de sangue vão continuar. E agora com um agravante: com a separação de torcidas, o ódio e a intolerância do torcedor diferente será institucionalizado, e sendo institucionalizado, ficará mais difício ainda combater tudo isso.

Nota: Pelo visto os times de futebol nem pensam em orientar suas torcidas a não baterem nem matarem em nome do time (Os clubes são responsáveis pelos seus times.). Provavelmente eles lucram com isso, e do jeito que todos esses times estão endividados até os pêlos do furico, aí que vão mesmo deixar tudo como está.