17 anos depois o Brasil está pior que no final os anos 90.
17 anos depois de 1999 presenciu como se eu tivesse andado, buscado e não ter saído do lugar. Presenciar mesmo depois de 13 anos do Partido dos Trabalhadores no poder resultar em um governo do PMDB aonde as coisas voltaram à estaca dos anos 90 é uma frustração, lembrando que a eleição de Lula em 2002 encheu de esperança que tempos melhores viriam.
Mas o resultado frustante está também pelo fato de parecer que em 13 anos o próprio PT não foi capaz de consolidar até mesmo as migalhas de melhorias que conseguiu fazer. Deixou até isso (as melhorias) muito frágil, ao ponto de elas se desfazerem com um estalar de dedos, bastando outro partido (que escolheu pra ser aliado, diga-se de passagem) assumir poder. Fez de propósito, acreditando que garantiria a permanência eterna no poder. E o certo é pensar na população, e não no poder. O PT errou e agora pagamos o preço.
Mesmo nos anos 90 as pessoas tinham consciência da necessidade de políticas públicas. Hoje as pessoas foram convencidas por jornais da TV e páginas de Facebook como se políticas públicas fossem privilégios ou "desperdício de dinheiro com supérfluos". Os brasileiros ficaram com medo da mudança e decidiram voltar aos anos 90, talvez porque o sofrimento é um conhecido.
17 anos depois ninguém foi capaz (nem PT, nem Esquerda) de mudar a tendência e o talento que a população brasileira tem de amar o conservadorismo. Tentou-se comprovar que homossexuais e transexuais também são gente, mas bastou parecer que as pessoas estavam conseguindo compreender isso pra a Direita se mexer, contornar tudo, e toda compreensão ir pro ralo abaixo, com um simples ressuscitação da tática do espantalho da época da Idade Média, de inventar que homossexuais e transexuais querem muitos direitos ou privilégios; como se poder completar os estudos sem sofrer violência escolar fosse privilégio quando é pra homossexuais e transexuais, mas um direito para os heterosexuais ao mesmo tempo! São invenções insustentáveis para qualquer um com um mínimo de senso crítico, mas depois de 17 anos a população brasileira continuou com o mesmo péssimo ensino escolar da época de Amazonino Mendes (caso político do Amazonas) e nem PT nem Esquerda conseguiram resolver isso!
17 anos depois ainda é um enorme tabu, em Manaus, um homem cis (heteronormativo) sentir atração ou assumir namoro com um transexual feminino pro masculino (homem trans) que gosta de homem invés de mulher. Pior foi presenciar até mesmo categorias da causa LGBT boicotando a causa dos homens trans: gays com ciúmes da sua visibilidade de carro-chefe da sigla, impedindo dos demais também terem sua visibilidade (transformando a causa LGBT em "GGGG") e lésbicas achando que homens trans seriam "lésbicas confusas"; lésbicas até hoje com dificuldade de reconhecer que aquelas pessoas, biologicamente mulher trajando roupas masculinas e atraídas sexualmente por mulheres, nunca foram mulheres lésbicas, e sim homens trans!
E os homens trans, que até hoje muitos ainda preferem viver "escondidos", dando um jeitinho e se conformando aqui e ali. E quando começa a surgir muitos a se revoltarem e iniciar o seu ativismo, a Direita ganha força política, ameaçando fazer aqueles que pensavam em "sair da toca" mudarem de idéia (na vida real, homens sempre foram mais medrosos que as mulheres).
Eu não quero voltar a viver escondido da sociedade. Perdi a adolescência e a juventude fugindo de problemas esperando que com o passar dos anos as coisas mudassem e elas não mudaram. Impossível viver como um assexual aos 30 anos. Ficou mais impossível ainda depois da decadência do mercado da música, onde até a música evangélica virou "barulheira", disputando com a "música secular" quem conquista mais com a pior música.
17 anos e o brasileiro não resolve seu problema de sanguismo-de-barata. Esquerdistas brincando de fazer ativismo realizando "manifestações" em praças e o mais pacífico possível porque morrem de medo da PM, morrem de medo de ativistas que jogam coquetel molotov na PM e quebram vidraça de banco. Ativistas que tem medo de explicar o que é Esquerda para as pessoas, enquanto páginas de Facebook e emissoras de TV caluniam e denigrem o comunismo, a tática black bloc e enchem a cabeça dos brasileiros de porcaria. Esquerdistas se fechando em sindicatos, partidos, conferências, enquanto que as ruas são tomadas por exércitos de manipulados pela Direita.
17 anos e o Amazonas não consegue sair do estigma de se conformar de seus problemas por migalhas de políticos, muito menos de parar de pedir que os políticos os olhem "com carinho". Enquanto que a ascenção progressista começa a surgir no Nordeste e no Centro-oeste do país. Até mesmo a região Norte começa a despertar pra vida. Paraenses obrigaram a taça da Copa de 2014 a sair do estado mais rápido, enquanto que os amazonenses estão satisfeitos com o Rock In Rio Manaus.
No constatar das coisas o Brasil nunca mudou em 17 anos. A população brasileira tem muito apego ao passado. Temos mais medo da mudança do que do sofrimento que passamos. O brasileiro ainda prefere negociar uma convivência com seus problemas porque morre de medo de morrer. Os homens preferem passar a amar o status social mais do que as pessoas, morrendo de medo do que as outras pessoas vão pensar dele de mãos dadas com uma pessoa trans ou uma mulher que não faça o tipo "boazuda".
2016 é o ano do Brasil vivo em uma crise geral; a crise econômica e política é apenas resultado de uma crise social, gerado pela capacidade assustadora do brasileiro viver como se estivesse em uma loop do tempo.