terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sociedade masculina manauara é a mesma de 1999.

Um dos meus maiores sonhos da minha vida era de viver um romance na adolescência, ao menos um. No entanto, a realidade da sociedade masculina brasileira, principalmente a manauara, não me permitiu tal sonho, me fez inclusive de abdicar dele, pra resguardar a minha adolescência, que como todos sabem, é a época mais infeliz do indivíduo. E eu sendo eu, uma adolescência de uma pessoa trans é praticamente uma condenação. Ainda mais de um trans feminino pro masculino (Homem Trans), diante de uma sociedade que odeia vagina. E de um trans gay, que gosta de homem invés de mulher, aí é mais infeliz ainda! Daí nada mais esperto do que eu de sabotar a minha adolescência, simplesmente não vivendo ela.
Não tinha a menor chance de sair de outra forma. Os homens brasileiros de 1999 já eram machistas e conservadores. Os de Manaus então, eram mais machistas e conservadores ainda. Os rapazes, mesmos os pré-adolescentes de 1999, ainda eram marginais, cabeças-ocas, e retardados. Exceções? Não, a sociedade manauara não há exceções! A sociedade manauara é tão homogênia (indivíduos exatamente iguais uns aos outros) que os ``cabocos´´ parecem ser clones um do outro! Até hoje é assim!
Diante dessa sociedade de homens machistas e misóginos, a minha decisão foi me isolar deles e me contentar com ídolos e personagens que são bem mais humanos e mais progressistas. Incrível como até hoje personagens fictícios até mesmo de criações atuais, como filmes e novelas, são bem mais humanos do que os homens brasileiros da vida real! O que parece é que as próprias pessoas criam pessoas que gostariam que existissem, quase que um suspiro, uma confissão de que o homem brasileiro é uma porcaria tão desinportante que se for usado pra fazer elenco de filme, série ou novela, a audiência cai ladeira abaixo!
Eu mesmo me isolei do mundo, me ``tranquei´´ dentro de uma ``bolha de plástico´´, e isso me prejudicou muito em várias coisas, principalmente quando tive que aprender a me relacionar com as pessoas, no qual sofri muito, como quando eu me esforçava ao máximo pra conversar normalmente e mesmo assim ouvir várias vezes que eu ainda não estava ``normal´´ (sendo que esse ``normal´´ na maioria das vezes é só ``agir igual a todos os outros´´). No entanto, isso também me protegeu e me resguardou de muitos malefícios, e por isso que até hoje não me arrependo da minha decisão, não mesmo! Graças ao meu alto-isolamento, me livrei de estupro(s), de falsas amizades, de frustrações amorosas (provavelmente seria em maior número) e até mesmo de mais bullying. Imagine eu, baixinho, frágio e mulher, diante daqueles valentões da 8ª série? O livramento foi muito grande...!
O tempo passou, 17 anos se passaram, e o parceiro não veio. Pior: os homens continuam os mesmos! Os meninos pré-adolescentes de 1999 são adultos hoje e são os ``direitistas da moda´´ atualmente, com os mesmos pensamentos conservadores de 1999, e com a mesma misoginia de sempre, só que agora mais desinibidos, agora com mais coragem até de compartilhar dicas pra conseguir estuprar.
Os rapazes mais novos tem outro pensamento, mas não diferenciam muito. Pra estes, a regra é o ``pegar e largar´´. Esses são da ideia de um mundo sem amor, sem relacionamento afetivo, só sexo mesmo. E quando muito, pois na falta dele, cerveja já compensa. É uma geração de ``assexuais´´, que consomem e consumem a idéia das mídias (TV, músicas e internet) de que uma sociedade sem amor é o ``babado´´, e que uma lata de cerveja é o suficiente pra satisfazer carências de afetividade.
Se nem eu consigo mais satisfazer-me com ídolos e personagens fictícios, imagine com bebida alcoólica! É tal qual a máxima de Arnaldo Jabor (do tempo quando falava alguma coisa que preste): anestesia, mas não faz a cirurgia. A falsa alegria da embriaguez é um analgésico que vai adiando os sintomas da doença, sem solucioná-la. E chega numa hora que os efeitos da doença passam a atrapalhar em outras áreas, e a incomodar e prejudicar a vida. Ora, eu mesmo tentei adiar o problema que deste naquela época já se mostrava insolucionável; e hoje ele me entreva de tal forma que não consigo mais viver se não resolvê-lo. Só que agora a sociedade brasileira e os homens se tornaram piores do que eram em 1999! E agora?
Não adiantou de nada ter fugido dos homens de 1999 e de 2006. Agora ficou pior até pra eu conseguir encontrar um que me encante, pois como idealizei pra mim um tipo de homem que já não existia em 1999, ele ficou ainda mais distante da realidade dos homens de hoje, que são piores que os de 1999. Assim, o tipo de homem que anseio não é nem mais uma utopia, sim uma megalomania, pois ele é ``melhor demais´´ do que os homens de hoje, que são ``piores demais´´.

Eu já passei a adolescência, hoje sou um adulto maduro e estou perto de completar 30 anos, mas parece que ainda estou lá em 1999, inclusive na mesma sociedade, com os mesmos homens. Ainda tenho o sonho de viver um romance, encontrar um parceiro, mas eu não consigo sequer sair da estaca zero! O que está dando errado? A sociedade que não muda? Os homens que não mudam? Só eu mudei, e mudei muito; inclusive era mais feliz em 1999, pois eu era feliz sozinho, e hoje nem mais isso. Será que vai se passar mais 16 anos e os homens continuarão os mesmos? Será que a sociedade masculina manauara vive numa ``lupi do tempo´´ deste 1999?